Resenha Especial: O Poço e o Pêndulo por Edgar Allan Poe


Conto: O Poço e o Pêndulo
Título do Livro: Histórias Extraordinárias
Autor: Edgar Allan Poe
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 448 (153-180)
Ano: 2017
Onde comprar: Amazon | Submarino
Tem um poço sem fundo abaixo de mim. Acima, há um pêndulo com ponta afiada como lâmina. Demônios horrendos decoram as paredes de metal. Minhas únicas companhias são ratos com olhos grandes e redondos e o eco da minha voz aterrorizada. Acho que estou enlouquecendo. O pêndulo está descendo? O poço está ficando mais largo? Os demônios estão começando a sorrir...? 

Durante a inquisição espanhola um homem foi julgado e condenado. No entanto, apesar de ter conhecimento de alguns dos horrores aos quais os prisioneios eram submetidos, não sabia o que os seus algozes reservavam para ele. Por isso quando ele recobra os sentidos em uma cela escura, tudo o que deseja fazer é explorar o espaço. Ainda fraco pelo aprisionamento e a escassez de alimentos, pouco a pouco ele percorre o pequeno perímetro e descobre a existência de um poço. Diferente de muitos presos, o homem livra-se do cruel destino e evita a morte pela queda, porém, isso lhe fez pensar no que as pessoas responsáveis por sua prisão fariam para tirar a sua vida.

E ele nem podia imaginar o tamanho da crueldade que estava por vir, pois aprisionado em uma mesa sem poder livrar-se das amarras que o mantinham ali, escapava dos seu raciocínio a função do pêndulo que estava sobre o seu corpo. Todavia, com o balanço do objeto de forma incessante, logo ficou claro que a ponta do pêndulo era composto por uma lâmina afiada que tinha por função lhe proprocionar uma morte lenta e dolorosa. Entretanto, todo o sofrimento que os carcereiros já tinham lhe imposto não foi o suficiente para tirar o seu anseio de conservar a sua vida e ele passa a correr contra o tempo para evitar o pêndulo.

O contexto histórico desse conto é deveras importante para entender não só o julgamento do personagem, como também as condições do seu encarceramento. Isso, porque, apesar de poder supor algumas das situações vividas pelos demais prisioneiros do período da inquisição, a realidade lhe era desconhecida, haja vista o temor de revelar os segredos dos carcereiros experienciada por aqueles que conseguiram a liberdade. No texto de Poe, o leitor é conduzido justamente por uma jornada na qual ele se predispõe a demonstrar os horrores das prisões dessa época, que, apesar do distanciamento físico entre o torturador e a vítima, possuía os mais diversos tipos de armadilhas para induzir o condenado a encontrar a morte.

Em "O Poço e o Pêndulo" o leitor acompanha todo o sofrimento do personagem que, solitário em sua cela, vivencia momentos de terror, em virtude da inanição, da ausência de luz e, porque não, da passagem do tempo. Neste conto, em especial, é possível perceber a forte influência do tempo, principalmente quando o personagem descobre a existência do pêndulo. Inclusive, em uma das passagens do texto, Poe destaca que os carcereiros possuem algum tipo de controle sob o objeto, já que localizado no teto, a lâmina do pêndulo pode baixar de forma rápida ou lenta.

E nesse ponto que o conto alcança o ápice do seu brilhantismo, pois o tempo é utilizado como elemento de tortura, posto que é por meio dele que o personagem experimenta o horror da espera proporcionado pela certeza da morte e da sua inevitabilidade. Nesse sentido, é incontestável que o conjunto dos elementos apresentados nesse conto o torna atemporal, já que mesmo fundado em um período histórico há muito superado, o medo continua sendo uma das emoções primárias do ser humano. Note-se que em "O Poço e o Pêndulo" ele pode ser encontrado em seu estado mais puro, pois associado a elementos como a passagem cruel do tempo, a ausência de luz e a solidão, é possível perceber a fragilidade da vida e da lucidez.

Sem sombra de dúvidas esse é um dos contos mais magistrais de Edgar Allan Poe que já tive o prazer de ler, certamente farei releituras em breve a fim de encontrar os segredos que - tenho certeza - estão escondidos no texto. Caso você ainda não tenha lido este conto, indico fervorosamente que o faça, pois a riqueza presente nessa história deve ser conhecida por todos. Não obstante, deixo nessa postagem a adaptatação para os cinemas desse conto, que além de proporcionar o conhecimento da obra, também propicia um vislumbre da Inquisição Espanhola e do seu impacto na vida dos contemporâneos dessa época.


[...] Ansiava por servir-me dos olhos, mas não ousava fazê-lo. Receava o primeiro olhar para coisas horríveis, mas horrorizava-me o receio de que nada houvesse para ver. - Pág. 161 

--- Isabelle Vitorino ---

Postar um comentário

Obrigada pela visita, dê sua opinião, participe e volte sempre.

- Caso tenha uma pergunta deixe seu e-mail abaixo que respondo assim que o comentário for lido.

- Caso sua mensagem não tenha relação com o post, envie para o e-mail.