Resenha Especial: Dom Casmurro por Machado de Assis

Eu fui a aluna de ensino médio que fugiu dos livros de Machado de Assis com obstinação e sou a leitora que está buscando recuperar o tempo perdido. E tudo isso começou com a leitura coletiva de "Dom Casmurro" (@blogmundodoslivros) e bons amigos me incentivando durante o processo de descoberta dos escritos machadianos. Ah, alerto-os desde já que esse texto pode revelar detalhes do enredo.

Título: Dom Casmurro
Autor: Machado de Assis
Editora: Edições Câmara
Ano: 2018
Páginas: 287
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Sinopse: "Dom Casmurro, de Machado de Assis, é uma das obras mundialmente célebres da literatura brasileira. O romance trata das memórias do narrador-personagem Bento Santiago, o advogado recluso e calado que recebe e adota o apelido mencionado no título da obra. Com a sutileza que lhe é própria, Machado de Assis explora as incongruências desse personagem, deixando transparecer sua insegurança e ciúme. As ambiguidades de Bentinho moldam o mais famoso “narrador não confiável” da nossa literatura."

Bento Santiago era apenas um jovem quando reconheceu em sua amiga, Capitolina, o amor de sua vida. A bela vizinha da Rua de Matacavalos, era uma garota ousada e que sempre deixou muito claro os seus sentimentos com relação a Bentinho. Talvez, por essa razão, ele tivesse tanta dificuldade em aceitar a promessa de sua mãe, Dona Glória, em mandá-lo para um seminário. Afinal, como ele poderia deixar para trás um amor verdadeiro e recíproco para se tornar padre? Na tentativa de dissuadir sua mãe, ele busca a ajuda de José Dias, um agregado que reluta em aceitar um possível relacionamento do garoto com Capitu, a quem reputa como portadora de “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, mas que faria qualquer coisa para agradar o futuro herdeiro da família.

Após o transcurso de alguns anos, os conflitos que poderiam separar o jovem casal pareciam ter sido solucionados, de modo que Bentinho encontra-se livre para viver o amor que tanto ansiava. Agora, não mais um jovem seminarista, mas sim um homem que acabara o curso de Direito, iniciava os seus trabalhos como advogado e celebrava a glória do casamento com Capitu. No entanto, ele não rompera todos os laços que ele tinha com o seminário, já que o seu melhor amigo, Escobar, o acompanhava desde os tempos de clausura e completava a sua vida feliz. E essa felicidade, que sempre lhe parecia tão pujante em certos momentos, aos poucos vai se enfraquecendo com a ausência de um filho, o que ele não esperava era que os seus maiores tormentos chegassem junto com o advento de sua prole.

Escrever sobre "Dom Casmurro" não é uma tarefa fácil, posto que essa obra publicada em 1899 traz consigo características tão fortes que é quase certo que aquele que se propõe ao encargo, falhe na abordagem dos elementos presentes na narrativa de Machado de Assis - principalmente, se for alguém que, assim como eu, não tenha tido nenhum outro contato com os escritos machadianos. Como uma leitora estreante nesse universo, posso assinalar que acompanhar Bentinho e seu narrador não confiável foi uma verdadeira aventura. Isso, porque, durante toda a leitura o leitor é instigado a sentir um misto de sensibilidade e desconfiança daquilo que está posto nas páginas.

É interessante observar que o Bentinho-personagem possui algumas diferenças do Bentinho-narrador, motivo pelo qual, eu enxergo nesse narrador o Casmurro, ou seja, a versão taciturna e irônica de Bento Santiago, que é quem nos apresenta a história do seu passado desde a infância até a sua vida adulta. A riqueza linguística de Machado de Assis é tamanha que todo o texto está cercado por interferências do narrador, como, por exemplo, conversando com o leitor (interlocução), fazendo referências implícitas e explícitas a outras obras literárias (intertextualidade), falando sobre o processo de escrita (metalinguagem) e promovendo interações filosóficas (digressão). É, portanto, uma obra complexa e que demanda do leitor uma certa tranquilidade durante o processo de leitura.

Para além desses aspectos linguísticos, um dos pontos que mais me convidaram a permanecer conectada ao livro certamente foi a relação de Bentinho e Capitu. E sim, inevitavelmente me deparei com o questionamento: "Capitu traiu ou não traiu Bentinho?". Todavia, a complexidade dessa relação possui outras camadas que extrapolam essa indagação tão celébre quanto a própria obra. Muito disso se deve, é claro, a construção da narrativa, que, para alguns, se assemelha a uma tese de defesa elaborada por Bentinho para justificar os seus atos, afinal, não se pode esquecer que ele era um advogado.

Incontestavelmente, por "Dom Casmurro" ter sido escrito na fase realista de Machado de Assis, o texto se distancia dos ideais de amor idílico presentes na fase romântica e se aproxima das reflexões sociais, do pessimismo, da ironia e de um maior aprofundamento aos aspectos psicológicos dos personagens. Assim, o que me saltou aos olhos foi a fragilidade da confiança entre o casal, em especial, no quanto Bentinho não confiava em Capitu e nos ciúmes exagerados dele com relação a sua amada. Isso, porque, são diversas as situações em que o protagonista tem pensamentos perturbadores sobre a fidelidade da esposa e sobre os seus próprios atos.

Em passagens nas quais ele reflete sobre coisas aparentemente banais, tais como, no capítulo em que Bentinho fala sobre os braços de Capitu e do incômodo que ele sente por eles serem objeto de olhares de terceiros, somos conduzidos a fazer uma interpretação atual da obra e identificar possíveis nuances do que hodiernamente se considera como um relacionamento abusivo. Isto é, torna-se inevitável não imaginar que além de certa insegurança, Bentinho possuía uma masculinidade frágil e que se apresenta de forma prejudicial não só para ele, como também, para as pessoas que o cercam.

Todavia, não se pode esquecer que a época em que Machado de Assis escreveu a obra este conceito de relacionamento abusivo/tóxico não estava presente nos debates sociais contemporâneos ao escritor, assim, há de se ter certa ponderação nesse tipo de leitura. A verdade é que não possuo um veredito a respeito de Bento Santiago, já que mesmo enxergando todas as suas falhas de caráter, também vejo a genialidade do narrador em deixar pistas que tornam a história dúbia e passível de múltiplas interpretações. Uma das leituras que fiz da obra, invariavelmente me conduziram até a possibilidade de Capitu ter feito um acordo com Escobar para conceber um filho, em virtude da impossibilidade de Bentinho fazê-lo. No entanto, essa é uma das muitas possibilidades interpretativas existentes na narrativa.

Para além, há diversos personagens interessantes de se acompanhar, tais como, José Dias, agregado da família que se faz presente desde a mais tenra idade do nosso protagonista e promove diversas interferências com o fito de moldar o seu destino, ora por iniciativa própria, ora a pedido do próprio Bentinho; a Dona Glória, mãe de Bento Santiago e a responsável pela promessa que o levou até o seminário, pessoa com quem ele possui devoção; e o Escobar, amigo desde a adolescência de Casmurro e o indivíduo que passa a povoar os pensamentos deste como sendo o verdadeiro pai do seu filho, que seria, em tese, a perfectibilização da traição de Capitu.

Por tudo o quanto foi dito, acredito que seja notária a minha admiração por "Dom Casmurro" e pela escrita de Machado de Assis. Apesar de ter levado uns bons anos para ter coragem de encarar a obra, sou grata por ter lido nesse momento em que posso refletir de maneira mais aprofundada a respeito de tudo o que encontrei nas páginas. Conforme mencionei anteriormente, essas são apenas impressões de leitura de uma leitora curiosa, assim, não encarem esse texto como uma análise crítica feita por um teórico literário. O meu desejo é tão somente despertar em quem estiver do outro lado desta tela a curiosidade em romper as barreiras das pré-concepções e adentrar no fantástico mundo machadiano.

Não, meu amigo. Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça da minha mulher, não fora ou acima dela.

--- Isabelle Vitorino ---

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