Resenha: Poeira Lunar por Arthur C. Clarke

Há algum tempo sinto necessidade de introduzir um pouco mais de ficção científica nas minhas leituras. Acho que durante muito tempo eu fiquei em um lugar comum - e confortável - da leitura, li tantas obras de uma mesma categoria que precisava de uma reviravolta na minha vida de leitora. Foi aí que, sem nenhum tipo de planejamento, olhei para "Poeira Lunar" e decidi mergulhar de cabeça nessa história... surpreendente.

Título: Poeira Lunar
Autor: Arthur C. Clarke
Editora: Aleph
Páginas: 304
Ano: 2018
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UM MUNDO CONHECIDO PELO HOMEM HÁ APENAS UMA VIDA, A MORTE ESPREITAVA SOB MIL DISFARCES INOCENTES. No futuro, a Lua, esse astro que atraiu e encantou a humanidade desde os primórdios, se torna um destino turístico. Seus mares nunca antes navegados, compostos por um depósito de poeira que permaneceu intocado e imóvel ao longo de milhões de anos, passam a ser desbravados por uma nave de cruzeiro com tecnologia de ponta: a Selene. Mas o espaço, apesar de nossos avanços científicos, continua sendo um ambiente arriscado, indômito e cheio de armadilhas. O que parecia um simples passeio turístico se torna uma perigosa aventura quando a Selene, com vinte passageiros a bordo, naufraga em poeira no Mar da Sede. Sem comunicação ou meios de voltar à superfície, o pequeno grupo fica preso, e os turistas, junto a dois tripulantes e um experiente astronauta, se tornam um microcosmo da sociedade. Enquanto aguarda o resgate, o capitão da Selene precisa lidar com as ansiedades de seus passageiros e, ao mesmo tempo, tomar difíceis decisões que podem significar a vida ou a morte para cada um dos náufragos.


Durante muito tempo a lua foi apenas o satélite da terra, um lugar inóspito e desabitado, cujas experiências de exploração não tinham sido bem sucedidas. Mas esses tempos sequer estavam na memória dos humanos, afinal, com o avanço da tecnologia e o sucesso das missões interplanetárias, o universo já possuía habitantes em diversos astros, inclusive, com pessoas nascidas nesses locais e outras muitas fazendo viagens de turismo para conhecer esses lugares. Pat Harris era um dos nascidos na lua e não só isso, ele também era o capitão da embarcação Selene, um veículo próprio para conduzir passageiros pelos mares de poeira existentes no local, e que no fatídico dia em que tudo aconteceu, estava ocupado por vinte e duas pessoas, entre passageiros e tripulantes.

A viagem começou como qualquer outra, o Mar da Sede estava em sua gloriosa tranquilidade e vastidão infinita, nada denotava qualquer perigo. Todos estavam calmos e perplexos diante da grandiosidade do lugar, se houvesse medo, ele era até empolgante, já que muitos dos integrantes daquela comitiva estava tendo o seu primeiro contato com o solo lunar. Porém, quando a embarcação foi misteriosamente engolida pela poeira, o desespero parecia ser a única saída, se não fosse a presença persuasiva de Pat e de um passageiro misterioso que conhecia muitos dos segredos da lua. No entanto, mesmo com o esforço conjunto para que as coisas não saíssem fora de controle, a impossibilidade de fazer contato com o mundo exterior, o racionamento de alimentos e o aumento gradativo da temperatura do ambiente eram os componentes ideais para que eles fossem levados ao limite da racionalidade.

Ficção científica é o tipo de gênero literário que eu demoro a ler, mas sempre que leio tenho experiências muito positivas. E com Arthur C. Clarke não foi diferente. Este, que era um autor que eu não conhecia o trabalho de perto, fazia parte da minha lista de leituras futuras, já que eu aguardava o avanço das minhas experiências no genêro para me aventurar nas suas histórias - tudo, pelo receio de não conseguir entender o propósito do autor, que é muito conhecido por trazer um nível mais avançado de ciência e tecnologia em seus enredos. No entanto, quando me permiti sair dessa zona do medo e pesquisei um pouco mais a respeito de "Poeira Lunar", percebi que muitas das características da história estavam dentro daquilo que eu esperava encontrar em uma grande aventura, afinal, temos aqui habitantes não só na lua, como também em todo o universo, e não só isso, há ainda todo um contexto de sobrevivência que me parecia tentador demais.

Já nas primeiras páginas Pat Harris e seus acompanhantes na embarcação Selene nos aprisionam junto com eles, pois reclusos em um pequeno espaço após o naufrágio no Mar da Sede, a tarefa de se distanciar dessa experiência aterradora é quase impossível. Uma e outra vez me peguei pensando não só em como agiria se estivesse em uma situação semelhante, como também qual o estratagema escolhido por Clarke para tirar o grupo do isolamento. E nossa, ele faz isso com muita maestria, pois linha após linha somos conduzidos por uma montanha-russa de emoções e de novas teorias a partir da imprevisibilidade dos acontecimentos que cercam o enredo, pois por mais que as coisas pareçam estar se encaminhando para a resolução, logo uma situação potencialmente mais perigosa acontece e tudo parece estar perdido.

No entanto, acredito que mesmo que o autor não trouxesse tantas reviravoltas para o seu enredo, os seus personagens são interessantes o suficiente para manter o leitor conectado a história. Como a sinopse já denuncia, nós temos uma situação que deixa vinte e duas pessoas enclauradas em um espaço pequeno, cuja localização é desconhecida por todas as pessoas que fazem o controle de segurança. Logo, além dos passageiros e tripulantes da Selene, nós também conhecemos o ponto de vista dos engenheiros envolvidos com o resgate da embarcação e dos jornalistas que estão fazendo a cobertura do acontecimento. Por ser narrado em terceira pessoa, é possível conhecer de forma mais próxima alguns dos protagonistas, já qua há mudanças de pontos de vista, assim como conceber uma opinião a respeito dos demais personagens.

E como se tudo isso não fosse suficiente, o autor ainda nos presenteia com questionamentos muito pertinentes do decorrer do livro. Isso, porque, o isolamento força esses indivíduos a criar uma sociedade nova, com regras próprias e líderes que deveriam ser ouvidos. A história não nega que esse tipo de sistema hierarquizado é propício a ocorrência de insurgências, mas elas até que foram diminutas, se considerado o potencial danoso da situação. Acho que por essas carcaterísticas tão peculiares de "Poeira Luna" que acabei me apegando muito a Pat Harris, ele é aquele tipo de personagem que lidera sem ser abusivo e que se preocupa com o bem estar de todos, inclusive, se colocando em risco sempre que era necessária a tomada de decisões drásticas.

Como vocês puderam perceber, esta é uma história que traz muitos elementos e que por isso consegue empolgar o leitor e estimulá-lo a prosseguir com a leitura mesmo quando algumas das explicações da parte técnica da operação de resgate não seja facilmente compreendida. Confesso que tive um pouco de dificuldade em alguns trechos, o que acabou quebrando a fluidez do texto, mas nada que me impedisse de continuar, porém, esse ponto combinado com a forma que o autor deixou para resolver o problema da Selene nas últimas páginas do livro, me deixou um pouco desapontada. Todavia, não é nada que interfira na minha visão de que Arthur C. Clarke foi um autor brilhante e que deixou um legado que deve - e merece - ser conhecido e divulgado.


A lógica dizia: "A Lua é um mundo pequeno, o horizonte deve estar bem perto". Mas os sentidos davam um veredito totalmente diferente. "Esta terra é absolutamente plana e se estende ao infinito", diziam, "ela divide o Universo em duas partes iguais, segue deslizando para todo o sempre por baixo das estrelas...". - Pág. 15 

--- Isabelle Vitorino ---

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