7 de fevereiro de 2016

Resenha: O Cavaleiro Fantasma por Cornelia Funke

Nesse minha caminhada, atrás de boas histórias infantojuvenis, eis que me deparo com Cornelia Funke, tida por muitos como a “J.K. Rowling alemã”. Ainda não tive a oportunidade de ler seu trabalho mais famoso, a trilogia Coração de Tinta, então resolvi começar por um pequeno livro da autora. Juntem toda a sua coragem e venham comigo, pois enfrentaremos fantasmas em um colégio interno!

Título: O Cavaleiro Fantasma
Autora: Cornelia Funke
Editora: Seguinte
Ano: 2013
Páginas: 176
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Jon Withcroft não estava nada feliz. E quem gostaria de ser mandado para um internato bem quando a mãe tinha arranjado um namorado novo? Pois, quando chegou em Salisbury, o garoto só pensava nos acidentes que o Barba (apelido “carinhoso” pelo qual Jon se refere ao seu grande rival) poderia estar sofrendo e no que seria escrito na lápide dele caso algum escorregão fosse fatal. Até que... na sexta noite em Salisbury, Jon descobre um novo motivo para querer voltar correndo para casa: ele passa a ser perseguido por um bando de fantasmas, que desejava nada mais nada menos que a sua morte. Mas em vez de pedir ajuda para a mãe, Jon recorre a um outro protetor: sir William Longspee, um cavaleiro fantasma que está enterrado na catedral da cidade e que jurou, antes de ser assassinado, estar sempre ao lado dos fracos e inocentes. Ao lado de Jon e de sua amiga Ella, sir William percorre cemitérios e duela contra zumbis, lutando não só para ajudar as crianças como também para cumprir seu próprio destino. Mas, para saber qual seria esse grande mistério que ronda nosso nobre cavaleiro fantasma, só lendo a história toda.

Jon Whitcroft é um rapaz de 11 anos e está revoltado. Ele vive com sua mãe e duas irmãs mais novas, sendo seu pai já falecido. Acontece que sua mãe começa um relacionamento com um dentista, chamado Matthew, que ele apelidou de Barba, pois o mesmo aparenta nunca fazer a dele. Mais que isso, Jon está revoltado, pois sua mãe o matriculou em um colégio interno na cidade de Salisbury, a quase uma hora de trem da sua cidade. Sua mãe, apesar de chorosa, estava feliz, pois havia sido na Escola da Catedral Salisbury que o falecido marido, pai de Jon e das meninas, havia estudado na infância, porém Jon tem certeza que a ideia do colégio interno veio do Barba, numa tentativa de se livrar dele, pois ele é o único na casa que não o suporta.

Chegando em Salisbury, Jon conhece os Popplewell, Alma e Edward. Eles são um simpático casal que serão os protetores do rapaz durante sua estadia no colégio e o guiam até a escola e seu dormitório, onde divide com mais dois rapazes, Angus Mulroney e Stuart Crenshaw. Angus é um rapaz alto que alega ter descendência escocesa e era um corista da escola (Ou seja, pertencia ao coral da Catedral) e, apesar de ser um pouco bravio, tinha fotos de diversos bichos de estimação na parede de sua cama e dormia rodeado por bichinhos de pelúcia, com um pijama de estampas de cachorro. Já Stuart era o menor e totalmente pilhado, sendo um tagarela apaixonado por tatuagens de mentira (tipo aquelas que vêm em chicletes). Apesar de seus novos companheiros e da nova rotina, nada consegue animar o rapaz, que se sente um prisioneiro ilhado no novo colégio.

Mas logo Jon irá perceber que sua saudade de casa será o menor de seus problemas pois, logo depois de sua primeira noite, da janela de seu dormitório, ele nota a presença de três figuras distintas. Trajando roupas de séculos passados, armados com espadas e montados em cavalos, esses cavaleiros saídos de alguma história de herói clássica tinham algo de estranho, além da caracterização: Eles eram pálidos e podia-se enxergar através deles, sem falar que tinham aspectos macabros e traziam uma marca estranha em seus pescoços, como se tivessem tentado cortar suas cabeças com facas cegas. Pra piorar, seus colegas de quarto não enxergavam tais criaturas! 

Com muita relutância o rapaz consegue dormir, achando essas criaturas foram apenas fruto de sua mente saudosa. Mas no dia seguinte, sendo guiados pelos protetores de volta ao dormitório, após um dia inteiro de aulas e atividades, ele não só se depara com essas três horrendas criaturas, como também, em sua crise de medo, fugindo para a Capela e espantando seus responsáveis, ele passa a ouvir uma voz em sua mente, falando que iria matá-lo e chamando-o de Hartgill, que ele logo se lembrou ser o nome de solteira de sua mãe. Após chegar até a Capela e dos fantasmas sumirem novamente, ele conta sua versão a seus superiores, que obviamente não acreditam nele e ligam a história ao fato do menino sentir saudades de casa. No dia seguinte ele inventa uma história qualquer para os colegas, afim de não ficar parecendo louco, mas uma das estudantes não engole a historinha e confronta o rapaz, que lhe relata todo o ocorrido.

A garota se chama Ella Littlejohn (Não sei o porquê, mas amo esse sobrenome!) e convence o rapaz a ir conhecer sua avó, que já teve experiências com fantasmas. Após conhecer a excêntrica e divertida Zelda Littlejohn (Nesse caso, eu sei porque amo o nome) em sua casa tomada de sapos, identificarem o fantasma-chefe como o antigo assassino, Lorde Stourton, e desvendarem o porquê da perseguição ao jovem rapaz, Ella surge com a seguinte ideia: Na Catedral está enterrado um famoso e nobre herói, cujo nome é William Longspee, que jurou que, enquanto não se redimisse, pagando por atos infames do passado, protegendo e servindo inocentes contra maldades, sua alma não teria paz. Resta agora saber se tal promessa do cavaleiro era real, assim como descobrir se ele seria capaz de exterminar com os riscos na vida do pobre Jon.

Eu não consigo definir esse livro com outra palavra que não seja: amor! Esse pequeno livro, contendo pouco mais de 170 páginas, tem tudo aquilo que um leitor de infanto-juvenis pode pedir: Além de sua carga dramática e de aventura, o livro nos traz aprendizados bem bacanas sobre a vida e sobre amadurecimento. A fantasia contada pela autora vai além de um embate épico entre cavaleiros, mas nos faz refletir sobre os personagens e o porquê deles agirem como são.

Os personagens são extremamente maravilhosos e cativantes. A noção de bem e mal é bem monocromática, logo o vilão é aquele personagem de caráter pérfido, sem nada que possa atrair simpatia, mas já os demais personagens, seja o protagonista, sejam os secundários, tem seus poltos altos e baixos bem feitos. Jon é um menino extremamente dramático e birrento, mas sua sagacidade é ótima e incrível, livrando-o sempre de ser taxado como louco, ou infantil, por inventar histórias bem trabalhadas que o transformam no “cara louco que vêm fantasmas por ter saudades da mamãe” no “Gênio que trolla os professores”. Não apenas isso, percebemos o amadurecimento do personagem durante todo o livro, nunca deixando de ser um menino de 11 anos de idade. 

Ella também é uma personagem rica em detalhes e extremamente carismática. Apesar de seu status de “Rainha do Gelo” e sua face blasé durante o tempo todo, ela sempre tem as melhores ideias e a química entre ela e o Jon é evidente. Fora isso, temos o próprio Longspee, uma alma melancólica e atormentada pelo passado e que, apesar de gentil e bravo, carrega consigo tristes mazelas que fez durante a vida. Os secundários também são excelentes, sejam os Popplewell, os colegas de quarto Oe a Zelda, todos tem uma importância e trazem humor e descontração à história.

O narrador, em primeira pessoa, trata-se do próprio Jon, que nos relata essa história anos no futuro, sendo esse então como um relato oral de uma história que aconteceu no passado. Ele consegue ser bem convincente, nos integrando totalmente tanto na história, como no personagem. Nós sentimos o medo do Jon, a sensação de abandono e encarceramento e até mesmo sentimos raiva do Barba, quando esse aparece em cena.

A cereja do bolo está na ambientação, pois, de acordo com a autora, todos os locais descritos, os fantasmas histórias e mesmo alguns singelos personagens, são todos reais! A autora viajou para a cidade e conheceu tanto a Catedral, como a Escola, onde papeou com as crianças e a diretora, bem como o cemitério onde o cruel Stourton foi enterrado. Isso dá um peso de realismo enorme à história e que nos dá vontade de embarcar para conhecer todos os locais descritos com tamanha riqueza de detalhes.

"O Cavaleiro Fantasma" é uma excelente pedida para uma leitura simples e descontraída. É um livro leve que, apesar de trazer aventuras perigosas e incríveis, pode ser apreciado por qualquer idade, nos recordando sobre o tempo de criar forças para lutar o que queremos.

“Depois que você viu um fantasma uma vez, você passa a vê-lo com mais frequência. Acho que eles estão por toda a parte. Talvez seja por causa deles que às vezes sentimos raiva ou tristeza sem mais nem menos. Talvez amor e medo não desapareçam tão facilmente como muralhas e pedras”.


--- Marcel Elias ---

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