14 de novembro de 2015

Resenha: Doutor Sono por Stephen King

E depois de sofrer e perder meu sono com O Iluminado, eis que Stephen King brinda a todos os leitores que viviam se perguntando: O que houve com o jovem Danny Torrance?

Título: Doutor Sono
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Páginas: 480
Ano: 2014
Onde comprar: Saraiva | Submarino
Mais de trinta anos depois, Stephen King revela a seus leitores o que aconteceu a Danny Torrance, o garoto no centro de O Iluminado, depois de sua terrível experiência no Overlook Hotel. Em Doutor Sono, King dá continuidade a essa história, contando a vida de Dan, agora um homem de meia-idade, e Abra Stone, uma menina de 12 anos com um grande poder. Assombrado pelos habitantes do Overlook Hotel, onde passou um ano terrível de sua infância, Dan ficou à deriva por décadas, desesperado para se livrar do legado de alcoolismo e violência do pai. Finalmente, ele se instala em uma cidade de New Hampshire, onde encontra abrigo em uma comunidade do Alcoólicos Anônimos que o apoia e um emprego em uma casa de repouso, onde seu poder remanescente da iluminação fornece o conforto final para aqueles que estão morrendo. Ajudado por um gato que prevê a morte dos pacientes, ele se torna o "Doutor Sono". Então Dan conhece Abra Stone, uma menina com um dom espetacular, a iluminação mais forte que já se viu. Ela desperta os demônios de seu passado e Dan se vê envolvido em uma batalha pela alma e sobrevivência dela. Uma guerra épica entre o bem e o mal, uma sangrenta e gloriosa história que vai emocionar os milhões de fãs de O Iluminado, e satisfazer os leitores deste novo clássico da obra de King.


Stephen King resolve, após anos de insistência de seus leitores, sanar um dos tópicos de maior curiosidade de seus fãs: O que houve com o pequeno Danny Torrence, após a conclusão d’O Iluminado? 

Antes de iniciarmos, é necessária uma ressalva: Doutor Sono é sim um livro de continuação. Diversos trechos, cenas e o próprio personagem principal fazem necessário que o leitor conheça a história de O Iluminado. E nem adianta apelarem para o filme, pois, além de ser bem diferente, o autor não gosta do filme do Kubrick e no epílogo de Doutor Sono ele mesmo avisa que não considera a obra cinematográfica como parte de sua história.

Obviamente então, a história vai nos contar como anda a vida de Dan. No prólogo temos a continuação imediata da história, e como algumas criaturas obscuras do hotel voltaram a assombrar o garoto, que aprendeu a se defender com seu amigo Dick Hallorann. Após isso começamos a dar um salto, onde vemos Dan já mais velho. O antes pequeno e inocente garoto agora se vê tragado pelo mesmo vício do pai, a bebida. Isto o torna praticamente um coadjuvante de sua própria vida, nunca se fixando em um local e nem mesmo criando vínculos com pessoas.

Tudo muda quando, em outra de suas fugas pelo país, ele é atraído para uma cidade em New England por seu antigo amigo Tony. Lá ele consegue um emprego temporário e conhece Billy Freeman e Casey Kingsley, duas pessoas que terão uma importância vital na vida de Dan deste momento em diante. Ao fazer então morada nesta cidade, passamos a acompanhar também o nascimento e crescimento de uma garotinha chamada Abra Stone. Abra é uma garota nascida quando Dan já se encontrava em New England, ela é iluminada, com uma habilidade ainda mais poderosa que a de Dan, quando era mais jovem. Ela sempre impressionou seus pais com essas habilidades, tanto que resolveu, com o passar dos anos, evitar expor tais habilidades, na tentativa de apaziguar os temores de seus progenitores. 

A vida da garota muda completamente quando, ao deparar-se com um folheto de crianças desaparecidas de um jornal, encontra a foto de um rapaz com o qual já havia sonhado e, na tentativa de descobrir o que houve com o rapaz, acaba por se revelar aos seus assassinos, o Verdadeiro Nó. Esse é o nome de um grupo de viajantes nômades que estão em constante movimento pelos Estados Unidos, só que a pacata e inofensiva imagem de viajantes ao estilo cigano esconde um segredo. Eles são pessoas que descobriram a imortalidade raptando, torturando e assassinando crianças iluminadas, absorvendo a essência de sua iluminação, o que eles chamam de vapor. A história desses personagens se mistura de um jeito perigoso, cabendo a Dan ajudar e proteger essa garota, enquanto enfrenta sua luta contra o alcoolismo e relembra de seu tenebroso passado.

Vamos a tudo o que me agradou nesse livro. Quem leu minha resenha sobre O Iluminado percebeu o quão sou fascinado e apaixonado por aquele livro. Foi meu primeiro contato com o King e, de longe, é o meu livro favorito do autor. Logo, minhas expectativas por esse livro atingiram níveis orbitais, o que nem sempre é bom.

King como sempre acerta muito bem quanto aos personagens. É muito interessante ele ter feito do Dan uma vítima dos vícios do próprio pai e, diferente do patriarca dos Torrence, ter resolvido lutar contra isso. A luta contra o alcoolismo de Dan é um dos pontos mais incríveis desse livro. É uma narrativa sutil e mesmo tempo que intensa, de como um vício pode tragar a pessoa por completo, independente do que a tenha feito começá-la.

Abra também é outra personagem que me trouxe um belo sorriso aos lábios. Ela é tudo aquilo que se pode esperar de uma adolescente de 13 anos, e ao mesmo tempo tem uma maturidade incrível. Ela é temperamental, explosiva e inconsequente, ao mesmo tempo em que é meiga, gentil e assustada. Que adolescente não se sente imortal e acima de todos e logo depois uma criancinha assustada, em algum momento da vida?

Os personagens secundários da história também acabam nos prendendo, como os pais e a bisavó da garota, ou mesmo Billy, Casey e o Dr. John, que tem um papel importante na trama.

Outra coisa que me deixou muito entretido foram as referências. Stephen King mostra que não para no tempo e que quer sempre atrair leitoras para seus romances, nos brindando com referências musicais diversas e mesmo literárias, que passeiam por George Martin, Shakespeare, Harry Potter, Senhor dos Anéis, Jogos Vorazes, Crepúsculo, Edgar Allan Poe e até mesmo a séries, como Sons Of Anarchy.

Mas, como tudo na vida, nada é perfeito.

Uma série de coisas me incomodou no livro, apesar de achar que são coisas mais pessoas que por problemas com o autor.

Nas resenhas anteriores, sempre comentei sobre como King nos dá uma ambientação incrível, antes de nos trazer o terror da história. Essa característica persiste, ele passa sim diversas páginas nos apresentado a cenários e personagens da trama, que são de importância extrema para o desenvolvimento da história, porém, dessa vez, achei que ele foi mais depressa que o normal, como se ele estivesse com pressa em nos levar para as cenas de ação e terror. Talvez seja uma nova abordagem do autor (pois meus contatos com ele, com exceção e Joyland, se estendem apenas aos romances mais antigos), mas isso acabou me desapontando um pouco.

Mas acredito que o fato que me fez pensar que poderia ter um melhor desenvolvimento foi o Verdadeiro Nó. Temos explicações sobre o que são e seu modus operanti, mas me incomoda não sei como começou o grupo, ou mesmo me faz interessar por ele. Fora a líder, Rose, e a Andi, que só sabemos mais no prólogo, todo o demais membros parecem estar lá somente para encher o grupo, indo contra algo que o Mestre é expert, que são as caracterizações. Mesmo a Rose tem um desenvolvimento um tanto superficial a meu ver. Eles acabam não sendo aqueles vilões que “amamos odiar”, mas simples assassinos que merecem punição. Fora isso, a segunda motivação que leva o Nó a ir atrás da Abra me pareceu algo extremamente forçado. Tentando ao máximo evitar spoilers, eles já tinham um porquê para ir atrás da garota, era mesmo necessário uma doença, sendo que a causa da mesma me pareceu um tanto absurda, devido ao fato do grupo já caçar crianças há séculos?

E o “plot twist” da história também foi algo que considerei bastante desnecessário e que, honestamente, não acresceu em praticamente nada a trama.

Mas o que não se pode falar é que o livro é enfadonho. Temos boas doses de sobrenatural, autocrítica, ação, aventura e a reconciliação do próprio Dan com seu passado. Para pessoas mais emotivas, uma certa cena já no final do livro deixou meus olhos bem marejados...

Em suma, Doutor Sono é um livro que, a meu ver, poderia ter sido melhor trabalhado, mas que não deixa a desejar naquilo que se propõe a narrar, chegando a superar expectativas em alguns momentos. É um encerramento de uma história iniciada a 30 anos atrás e que povoou os sonhos (e pesadelos) de diversos fãs do autor.

E, citando o próprio Mestre: “Quando estiverem em estradas e rodovias da América, fiquem de olho nesses trailers. Nunca se sabe quem eles levam. Ou o quê.”

“A vida era um disco, cuja única tarefa era girar, e que sempre voltava ao início” – Pág. 459

--- Marcel Elias ---

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