6 de novembro de 2015

Comic Resenha: Do Inferno por Alan Moore e Eddie Campbell

Tirem as crianças da sala pois temos uma história sórdida para contar.

Título: Do Inferno
Autor: Alan Moore e Eddie Campbell
Editora: Veneta
Páginas: 592
Ano: 2014
Onde comprar: Saraiva | Livraria Cultura | Submarino
Essa é a história de Jack Estripador, o mais misterioso e famoso assassino de todos os tempos. Escrita por Alan Moore, o criador de história em quadrinho como Watchmen e V de Vingança, Do inferno é uma reflexão a respeito da mente enlouquecida cuja violência e selvageria deu início ao século 20.

É numa Londres suja e depravada no final do Século 19 que acompanhamos o legado de Jack, o Estripador. Ao longo dos anos a identidade de Jack, o Estripador sempre foi um enigma para todos, as únicas evidências que persistiram ao longo dos anos não se sustentam nem promove conclusões definitivas tanto que nunca foi encontrado o verdadeiro culpado pelos assassinatos.

Publicado originalmente entre 1991 e 1996 e com uma edição de luxo recém lançada (vide capa), "Do Inferno" traz em Quatorze Capítulos uma sequência de assassinatos e suas conspirações maçônicas. Contando com um apêndice onde o autor destrincha cada capítulo, quadrinho por quadrinho, esmiuçando toda a obra e apresentando a base jornalística levantada que serve de fundação para a trama.


A genialidade da obra não está na descoberta do assassino, ou em uma reviravolta, um plot twist, mas na forma sagaz em que ela se desenrola, revelando as múltiplas facetas dos personagens. Ou seja, não são os fatos que faz "Do Inferno" uma obra prima, mas como e o porquê deles acontecerem.

A história é contada, por vezes, pelo ponto de vista do assassino, Dr. William Gull, revelando um pouco de uma mente entorpecida e nublada por conceitos maçônicos regados a sangue frio. Os fatos também são contados sob a perspectiva do Detetive Abberline que perdeu esposa e filho e agora é encarregado da investigação e do inquérito policial sobre os assassinatos. A história vai além de uma simples investigação e revela uma trama muito mais complexa e trabalhada de revirar o estômago de qualquer um.

Assim como outras obras de Alan Moore, "Do Inferno" é épico do começo ao fim e para quem ainda não teve a oportunidade de ler outras obras dele, vai um aviso, leia com muita atenção! Conhecido por sua escrita cuidadosa em "V de Vingança" e "Watchmen", o bruxo tem a arte de estabelecer retalhos temporais que vão se encaixando de uma forma incrivelmente inesperada, dando aquele “click” na cabeça do leitor.
Menos que um dedal de iodo separa o intelectual do imbecil...fenômeno este que agora tentarei demonstrar. Cap. II-1

Essa graphic novel, assim como os outros trabalhos dele, são definidos em nove quadrículos por página, dando aquela sensação cinematográfica de frame por frame da cena que está acontecendo, um artifício que sustenta muito a composição das ações. E quanto a arte? Que arte! Numa primeira vista pode parecer estranho, principalmente se você estiver acostumado a ler quadrinhos de super heróis e super coloridos. A arte é desenhada apenas no nankin, totalmente em preto e branco. Porém com o passar da narrativa dá para sentir o tom escuro e pesado que essa técnica atribui a graphic novel, sobretudo quando tratamos da violência explícita, das cenas de sexo e da ambientação desse lado distorcido de Londres. Por vezes, Campbell abusa de rabiscos e hachuras para preencher o cenário, solidificando a morbidez e seriedade das situações.

Ilustrado pelo excelentíssimo Eddie Campbell, durante toda a história não se perde o clima opressivo e tenso. A obra mostra a face impiedosa de Londres, pessoas vivendo na miséria, um dia por vez, chafurdando na lama, sendo abastecidas de bebidas e prostituição. Os acontecimentos principais acontecem no bairro de Whitechapel onde são apresentados vários personagens, uma verdadeira teia de histórias com suas respectivas singularidades que se atracam e alinham uma na outra. 

Mas hey! Estamos falando de uma obra do Moore! Não podemos esperar nada raso ou superficial.Considerada como uma das graphic novels mais bem produzidas pela crítica especializada, "Do Inferno" fala com o leitor através da arquitetura londrina, revelando o caráter implacável de suas ruelas, sarjetas e bares. A sociedade vitoriana é outra grande personagem, dando ritmo aos acontecimentos e motivação as personagens. A dedicação que Moore teve em pesquisar todos os fatos reais e correlacionar com suas teorias dão um ar mais firme a trama, aproximando-a de uma realidade tangível.

Sendo base de análise de artigos científicos, a obra recebeu uma adaptação para os cinemas em 2001, estrelada por Johnny Depp como o Detetive Abberline, seguindo um clima diferente do livro. Como de costume, Alan não quis emitir opinião sobre a adaptação da sua obra, onde segundo ele "você é arrastado através dele à 24 quadros por segundos".

As palavras são insuficientes para descrever a grandiosidade desse título, a tensão sobre os acontecimentos, o envolvimento da família real, a representação da vida das prostitutas, a configuração daquela sociedade e os backgrounds dos personagens. Tudo isso culminando em um desfecho brutal.


Estamos na mais extrema e absoluta região da mente humana, um mundo das profundezas escuro e inconsciente. Um abismo radiante onde os homem encontram a si mesmos...O inferno, Netley. Nós estamos no inferno. Cap. IX-31

--- Juão Lucas ---

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