22 de setembro de 2014

Resenha: A Matemática nos Tribunais por Leila Schneps e Coralie Colmez

Nutro um interesse muito peculiar por livros que tratam da criminologia para alguém que não possui uma formação que atue nessa área. No entanto, se antes eu achava que quem se graduava em Direito dominava os trabalhos relacionados ao âmbito criminal, depois de ler “A Matemática nos Tribunais”, percebi que o espaço limítrofe desse campo de trabalho é muito maior. Ainda mais quando levamos em consideração a importância de toda e qualquer prova para inocentar ou condenar um réu.

Título: Matemática nos Tribunais - Uso e Abuso dos Números em Julgamentos
Autores (as): Leila Schneps e Coralie Colmez
Editora: Zahar
Páginas: 288
Ano: 2014
Onde comprar: Saraiva | Zahar
Um criminoso está prestes a ser libertado por efeito de um cálculo errado. A enfermeira Lucia de Berk será condenada à prisão por causa de uma contagem dupla. Um militar francês definha no cárcere por culpa de uma probabilidade altamente improvável. Dois jovens são soltos, embora possam ter assassinado brutalmente uma colega. A Matemática nos Tribunais analisa dez casos que ilustram como até agora a estatística tem ajudado a engrossar a fileira dos erros judiciais - pelo mau uso dos números em julgamentos. São histórias reais que demonstram como a matemática pode ser, de fato, uma questão de vida ou morte. Sem deixar de fora todos os elementos e o ritmo de uma boa história de mistério, cada um dos casos é investigado em detalhes. Da reconstituição do crime à ação dos principais personagens envolvidos - entre réus, advogados, testemunhas, promotores e peritos -, as autoras conduzirão o leitor pelos labirintos forenses e apontarão os equívocos cometidos pelo mau uso (ou má compreensão) dos números no processo legal. Os casos examinados são exemplos de como o emprego da estatística no âmbito da Justiça tem produzido sentenças enganosas, por vezes não corrigidas. Eles cobrem uma ampla gama da matemática usada nos tribunais, desde a mais simples análise de caligrafia, no fim do século XIX, até as combinações hoje aplicadas na identificação do DNA. Uma surpreendente combinação de dramas reais, histórias de tribunal e matemática para mostrar que, no caso da lei, um erro de cálculo pode custar muito caro.

"A Matemática nos Tribunais" é um livro majoritariamente feito para aqueles que se interessam por criminologia, bem como, por matemática. Abordando dez casos com erros matemáticos que influenciaram na sentença do réu de alguma maneira, as autoras Leila Schneps e Coralie Colmez lançam luz em especial a um determinado tema: a probabilidade e a estatística. Com claros níveis de dificuldades, cada caso representa um desafio maior não só para os estudiosos convidados para dar suas opiniões acerca das condições extraordinárias que envolvem os crimes, como também, para os leitores que se veem cada vez mais imersos em uma situação onde um número pode determinar o futuro de uma pessoa – seja ela inocente, seja ela culpada.

Transitando sempre em um terreno perigoso, as autoras deixam claro a todo o momento o quão complicado é a utilização dessa área tão racional, em algo que requer tanta sensibilidade. Mas mais do que isso, pensando no desconhecimento dos leitores tanto com relação a área criminal, quanto a área matemática, Schneps e Colmez optam por uma escrita didática que não só ensina os pré-requisitos básicos que envolvem a matéria de estudo de cada caso, como também, a sua possível validade nos tribunais. Preferindo o relato informal, sempre que elas necessitam recorrer a termos mais específicos, elas ora adicionam notas explicativas, ora dissecam o assunto no texto de modo a nos deixar mais à vontade diante de teorias que nem sempre são conhecidas pelos não estudiosos da matemática.

Acredito que por isso não senti muita dificuldade em acompanhar os casos e entender precisamente qual era o ponto que elas queriam chegar com o esmiuçar dos fatos. No entanto, estranhei a maneira como elas logo nas primeiras linhas direcionavam o leitor acerca do juízo sobre a inocência ou culpa do réu. Nesse quesito achei que faltou um pouco mais de clímax, o que não é algo completamente inesperado, já que por mais que as histórias relatadas por elas tenham material suficiente para uma escrita mais dramática, o fato do livro ser uma não-ficção deve ter pesado na decisão das autoras de se manterem um pouco mais distantes desses artifícios para que os textos não perdessem a credibilidade que de modo tão hábil eles souberam conquistar dentre aqueles que utilizaram seus escritos como fonte de estudo.

Após relevado este ponto, os apaixonados por uma boa história policial encontrarão nesse livro casos interessantíssimos para acompanhar. Dentre eles, merecem destaque o caso de Meredith Kercher, uma jovem britânica que fora brutalmente assassinada em seu quarto enquanto participava de um intercâmbio na Itália pelo programa ERASMUS, cujas suspeitas da realização do crime recaiam sobre uma companheira americana de hospedagem e o seu então namorado, um jovem italiano; bem como o caso de Lucia de Berk, uma enfermeira holandesa que fora acusada de assassinar os pacientes (que até então tinham sido considerados vítimas de mortes naturais) após uma colega de trabalho dizer ao diretor do hospital em que trabalhava que achava estranho a quantidade de incidentes que ocorriam no lugar com a presença de Lucia.

Ademais, por ser focado na matemática, aconselho o leitor que não tem muita habilidade na matéria, revisar os princípios básicos que regem a probabilidade e a estatística, pois mesmo com as explicações das autoras, se não houver um conhecimento prévio nos assuntos, isso pode prejudicar o entendimento das profundas – e às vezes complexas – explicações acerca do uso dos números nos tribunais. Principalmente, porque é através desses estudos que elas entram no universo peculiar dos matemáticos e porque não, dos geneticistas. Diante disso, é importante pontuar que se o leitor em questão não gostar de nenhuma das áreas que o livro trabalha, provavelmente não conseguirá apreciar o belo trabalho que as autoras fizeram. Mas se o leitor tiver o mínimo de interesse pelo tema, perceberá no decorrer da leitura que o livro é uma fonte preciosa de conhecimento.

[...] Nada pode destruir um governo mais depressa que seu fracasso em observar suas próprias leis, ou, pior ainda, seu desrespeito ao caráter da sua própria existência. Pág. 60

--- Isabelle Vitorino ---

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