23 de março de 2016

Resenha Especial: De Profundis por Oscar Wilde

Pouco autores conseguiram me tocar como Oscar Wilde. É só isso que posso dizer para vocês antes de iniciar essa resenha.

Título: De Profundis
Autor: Oscar Wilde
Editora: Tordesilhas
Ano: 2014
Páginas: 208
Onde comprar: Livraria Cultura | Submarino
Reconhecido por seu distinto talento literário, Oscar Wilde também atrai grande interesse em função de sua vida pessoal, cuja reconstituição baseia- se em partes nos escritos biográficos e não ficcionais dentre os quais o mais famoso talvez seja a epístola De Profundis. Já um autor prolífico e renomado, Wilde se envol[veu com o jovem britânico Lord Alfred Douglas, a chamava de Bosie. Numa época em que a homossexualidade era considerada crime, a relação amorosa acabou custando ao escritor irlandês uma sentença de prisão por indecência grave em maio de 1845. Isolado da sociedade, Wilde continuou ocupando-se das letras enquanto estava encarcerado. Numa dessas ocasiões, escreveu uma carta a Bosie que ganharia o título latino de De Profundis. Referência à passagem bíblica do salmo 130, a expressão em português, das profundezas metaforiza uma terrível angustia e, segundo alguns críticos a morte. A epístola dá conta das dificuldades sofridas por um Wilde flagrantemente amargo e queixoso, que revive episódios de sua relação com Bosie por meio da escrita e reflete sobre a humanidade e os dilemas éticos da sociedade. De Profundis corre por fora do cânone de Oscar Wilde, sendo uma obra menos estudada que clássicos como O Retrato de Dorian Gray. 

Quando penso em histórias que conseguem me emocionar a ponto de me fazer fechar os olhos por um segundo antes de continuar, sempre me vem a mente aquelas cujo relato é de alguém que sofreu algum tipo de evento extraordinário em sua vida. Comumente, esses livros tem um plano de fundo onde a guerra está dominando os indivíduos através da opressão e do medo. Entretanto, quando comecei a ler "De Profundis" percebi que esses sentimentos não só permeiam um ambiente macro, mas também o micro.

Digo isso porque é com um toque de rancor e de vontade de desnudar a sua alma que Oscar Wilde inicia a carta de resposta ao autor de todos os seus males: seu amante Alfred Douglas. Sendo uma espécie de autobriografia epistolar, página após página o leitor é presenteado com a oportunidade de conhecer outras nuances da vida desse ilustre escritor que ganhou destaque no cenário literário com obras como "O Retrato de Dorian Gray" e que foi eternizado no mundo justamente pelo seu poder de manipular habilmente suas palavras.

Diferente de outros textos autobiográficos, nessa carta Wilde consegue passar de maneira tão profunda tudo o que viveu e o que sentiu, que por mais que se tente, é impossível não se conectar com os sentimentos dele. Me vi tantas vezes em seus relatos. Ainda mais quando ele detalha toda a sua decepção, sua angústia e diz todos os porquês de como amou e de como se arrependeu de ter amado.

Sabemos que nunca é fácil superar uma decepção, porém, isso se agrava ainda mais quando em decorrência dela se perde os bens mais preciosos que se possa ter. E Wilde perdeu, já que além de estar sem a sua liberdade e com a dignidade por um fio, seu filho mais querido foi tirado de seus braços. Sim, ele chegou ao fundo do poço. Entretanto, para o seu profundo pesar, sair fisicamente de lá não lhe deu a oportunidade de tirar sua mente de tudo o que aconteceu.

Uma coisa que passou na minha cabeça o tempo todo foi a de que todos nós temos um pouco de Oscar Wilde. Quem nunca se entregou a uma relação de corpo e alma, mas que só recebeu em troca a fria indiferença? Quem nunca depositou a sua felicidade nas mãos de alguém? Quem nunca ficou tão ferido a ponto de acreditar que o que está sendo buscado é algo impossível de se encontrar? Quem nunca viu o amor se transforma lentamente em rancor... em ódio?

Sim, esse livro tem um cunho tão pessoal que chegamos a nos sentir constrangidos diante de todas as intimidades que Wilde revela. Principalmente por percebermos a mágoa por trás de cada palavra sua. Cada frase ferina que ele escreve, nada mais é do que uma forma de tentar atingir aquele que lhe faz tanto mal e que só podemos denominá-lo como sendo o grande antagonista de sua vida.

A verdade é que é muito fácil fechar os olhos para o ser humano que Wilde foi e apontar apenas no que ele falhou. Entretanto, acredito que os preconceitos que ele sofreu por ter escolhido uma vida tida como profona já foram tantos em sua época que acredito que nada é mais justo do que aqueles que pretendem mergulhar no seu relato e nas suas memórias se dispa de pré-julgamentos e tenham em mente que a maneira mais justa de se exercer a liberdade é optando pela felicidade em detrimento das convenções sociais. E foi isso que Wilde fez.

[...] era necessário ceder a você ou ceder você. Pág. 20

--- Isabelle Vitorino ---

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