8 de janeiro de 2016

Resenha: Desventuras em Série – Serraria Baixo-Astral por Lemony Snicket

Um ambiente desolado, um tutor que é um muito mais um patrão que qualquer outra coisa, uma oftalmologista sinistra acompanhada de uma recepcionista nada atraente e direitos trabalhistas (ou a falta deles) são alguns dos pontos que você vai encontrar na nova desventura vivida por nossos 3 órfãos sofredores. Bem-vindos à Serraria Alto-Astral... Ou não!


Título: Serraria Baixo-Astral
Série: Desventuras em Série #4
Autor: Lemony Snicket
Editora: Seguinte
Ano: 2014
Páginas: 184
Na opinião de Lemony Snicket, ´de todos os volumes que contam a vida infeliz dos órfãos Baudelaire, Serraria baixo-astral talvez seja o mais triste até agora´. Alto-Astral é o nome da serraria que serve de cenário para as novas calamidades que Klaus, Violet e Sunny serão obrigados a viver. Eis a chamada ´ironia do destino´, pois ali, no meio daquelas árvores derrubadas, daquelas enormes toras de madeira, o que as três crianças vão encontrar é mais uma coleção de coisas horripilantes, tais como uma gigantesca pinça mecânica, bifes do tipo sola de sapato, uma hipnotizadora, um dramático acidente que causará ferimentos e um homem com uma nuvem de fumaça no lugar da cabeça. A vida dos Baudelaire é mesmo muito diferente da vida da maioria das pessoas, ´a diferença principal estando no grau de infelicidade, horror e desespero´... Diante desse quadro, algum leitor desavisado pode desconfiar: ´Como é que alguém vai se divertir com um livro desses, se as personagens não param de sofrer?!´. A pergunta faz sentido, mas é justamente aí que descobrimos um dos melhores segredos de Lemony Snicket, pseudônimo do americano Daniel Handler. Ele leva o exagero às raias do absurdo, faz o realismo perder feio para o mais deslavado faz-de-conta e o resultado não poderia ser outro: uma brincadeira literária incessantemente bem-humorada.

Nesta nova aventura, após os horrores e medos enfrentados no livro anterior, os irmãos Baudelaire são mandados, junto com o Sr. Poe (agora promovido em seu cargo) para a cidade de Paltryville, onde encontrarão seu novo tutor, o Senhor (Ele não tem nome, pois é muito grande e complexo de se falar), e desde já o Sr. Poe deixa bem claro: Caso algo dê errado com esse tutor, ele não terá outra escolha senão por as crianças em um colégio interno. Ao chegaram na cidade, a primeira coisa q percebem é um estranho prédio em forma de olho, que é a mesma forma da tatuagem no tornozelo do Conde Olaf, que junto com sua monocelha, é a marca registrada do vilão.



Chegando então em seu novo lar, a serraria Alto-Astral, são recepcionados pelo otimista Phil que lhes dá a notícia: Para viverem na serraria, eles terão que trabalhar lá! Após um dia de trabalho quase escravo, eles encontram Charles, o sócio de seu novo tutor, que considera um absurdo as crianças terem que trabalhar lá e diz que irá conversar com ele a respeito disso. Como recompensa pelo dia de trabalho árduo, Charles os mostra a biblioteca da cidade, que na verdade só tem 3 livros: Um com a história da cidade, outro com a história da serraria, e um sobre optometria, que foi uma contribuição da Dra. Georgina Orwell, que trata-se da oftalmologista que mora na “casa-olho”.



As coisas começam a ficar misteriosas a partir do momento que o capataz da serraria, o horrível Flacutono, faz Klaus tropeçar e quebrar seus óculos, forçando-o a ir para a oftalmologista. Depois disso, Klaus passa a gir de maneira misteriosa, como se estivesse hipnotizado.

Cabe às duas irmãs, Violet e Sunny, descobrirem o que houve com seu irmão, e desvendar o paradeiro do desaparecido Conde Olaf, que ainda está entre eles, com seus pérfidos planos!

Talvez um dos livros que me cause mais revolta na série toda, Serraria Baixo-Astral nos traz uma temática pesada sobre a exploração trabalhista, bem aos moldes de Oliver Twist, do Charles Dickens. Aqui as crianças são obrigadas a um trabalho árduo e sofrível, sem nem direito a uma alimentação descente, ou mesmo à pagamento! Seu tutor é um homem mesquinho e misterioso, além de nunca ninguém ver seu rosto, pois está sempre tomado pela fumaça de seu charuto, ele apenas se comunica com os irmãos através de memorandos, dando-lhes ordens ou mesmo exigindo excelência no serviço prestado.

O livro também tem uma forte referencia à obra “1984”, de George Orwell (percebam o nome da oftalmologista), assim como nos evoca a observamos o quão alienados os trabalhadores podem ser.

O Conde Olaf, como sempre, está lá, aproveitando-se de toda a falha estrutural dos tutores e explorando ao máximo suas habilidades e capangas para por as mãos na fortuna Baudelaire, dessa vez sob o disfarce nada sensual da recepcionista Shirley.

Apesar de todo o cenário triste e revoltante, Lemony Snicket continua com sua narrativa única e descontraída, nos divertindo mesmo em meio a esse cenário que deixaria o conselho tutelar de cabelos em pé. E algo que vale nota também é que, pela primeira e, se não estou enganado, única vez, Klaus e Violet trocam de papéis durante a narrativa, sendo ela então aquela que pesquisa as soluções para o problema por meio de pesquisas em livros, enquanto Klaus inventa algo que ajuda a todos.

A série continua num ritmo ótimo, na dosagem certe de humor, drama e tensão. Convido a todos a lerem essa narrativa que traz temas tão pesados de forma tão lúdica e divertida.


“Se algum dia vocês passaram por uma experiência lamentável, com certeza já ouviram que na manhã do dia seguinte se sentiriam melhor. Isso, evidentemente, é um completo absurdo, por que uma experiência lamentável continua a ser uma experiência lamentável apesar da mais linda das manhãs”. – Pág. 81


--- Marcel Elias ---

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