4 de setembro de 2015

Resenha: O Rei Demônio por Cinda Williams Chima

E olha que voltou, após um hiatus gigante! Agradeçam aos meus queridos professores da faculdade... Após muito vagar por outros tipos de histórias, quis retornar a minha paixão original: as fantasias! Quero dividir com você hoje a agradável experiência que tive com uma autora que relutei um pouco para ler, mas que foi me conquistando aos poucos: Cinda Williams Chima!

Título: O Rei Demônio
Série: Os Sete Reinos #1
Autor (a): Cinda Williams Chima
Editora: Suma de Letras
Páginas: 384
Ano: 2014
Onde comprar: Saraiva | Submarino
Os tempos são difíceis na cidade de Fellsmarch, nas montanhas. O jovem Han Alister é capaz de quase qualquer coisa para garantir o sustento da mãe e da irmã, Mari. Ironicamente, a única coisa valiosa que ele possui não pode ser vendida: largos braceletes de prata, marcados com runas, adornam seus pulsos desde que nasceu. São claramente enfeitiçados — cresceram conforme ele crescia, e o rapaz nunca conseguiu tirá-los. Certo dia, depois de uma discussão, Han toma um amuleto de Micah Bayar, filho do Grão Mago, para evitar que o rapaz o usasse contra ele. Han logo descobre que o amuleto tem uma história maldita — ele pertenceu um dia ao Rei Demônio, o mago que quase destruiu o mundo, mil anos antes. Com um artefato mágico tão poderoso em jogo, Han sabe que os Bayar farão de tudo para recuperá-lo. Enquanto isso, Raisa ana’Marianna, princesa herdeira do Reino de Fells, enfrenta suas próprias batalhas. Ela acaba de retornar à corte depois de três anos de relativa liberdade com a família do pai no Campo Demonai. Raisa poderá se casar ao completar 16 anos, mas ela não está muito interessada em trocar sua liberdade por aulas de etiqueta e bailes esnobes. Almeja ser mais que um enfeite, aspira ser como Hanalea, a lendária rainha guerreira que matou o Rei Demônio e salvou o mundo. Mas parece que sua mãe tem outros planos para ela — planos que incluem um pretendente que renega tudo que o reino representa. Os Sete Reinos tremerão quando as vidas de Han e Raisa colidirem nesta série emocionante da autora Cinda Williams Chima.


No reino de Fells, toda a ordem e poder estão nas mãos da figura da Rainha. Ela é a monarca absoluta, que tem como conselheiro um Grão Mago, atado a vínculos mágicos, que o proíbem de interferir nas decisões da Rainha. Além dos magos, o reino de Fells conta também com o povo da montanha, que são clãs que produzem, dentre outros artefatos, os amuletos, vitais para magos e feiticeiros. A raça dos magos e o povo das montanhas tem uma antiga rixa, devido à guerra que ocorreu a mil anos passados, o que faz com que a relação entre eles seja, no mínimo, conturbada.

A história se dá início através de Hans Allister, um garoto camponês e pobre que, mesmo com a pouca idade, se vê forçado a garantir o sustento de sua família, composta por sua mãe e sua irmã menor. Hans tem bastante respeito pelos clãs das montanhas, que o tratam como igual no meio deles. O rapaz tem vários questionamentos a respeito de seu passado, pois desde que se entende por gente carrega consigo um par de braceletes prateados (um em cada braço), com escritos estranhos, provavelmente mágicos. Tais braceletes não se soltam de seu pulso de maneira alguma, garantindo assim o apelido de Algemas ao jovem. Infelizmente seus questionamentos nunca foram respondidos, pois sua mãe não gosta de falar sobre o passado. 

Hans tem uma relação conturbada com sua progenitora, pois no passado foi o líder da gangue local, onde ele roubava os ricos para dar sustento à sua família, mas abandonou essa vida, em prol de dar uma oportunidade melhor para sua irmã. Em um de seus serviços, buscando ervas nas montanhas com seu amigo e companheiro Dançarino, eles se deparam com um trio de jovens magos, que não poderiam estar lá, pois as montanhas são território proibido para os magos. Após alguma discussão, Hans consegue ter posse do amuleto que estava sendo utilizado pelo líder do trio, Micah Bayar, criando inimizade com o rapaz e iniciando assim uma aventura cheia de mistério e suspense.

Sob outro ponto de vista, temos a princesa Raissa, que em pouco tempo atingirá sua maior idade e será nomeada princesa herdeira de Fells, onde será esperado que um casamento seja feito, a fim de aumentar o poder de seu reino, pois seus vizinhos encontram-se em guerra, forçando a rainha a tomar alguma atitude a respeito. Raissa, a contragosto da mãe, passou parte de sua vida nos Campos Demonai, terras dos clãs das montanhas, de onde vem seu pai, por essa razão a garota se sente uma estranha na corte, tendo muita dificuldade a voltar a se acostumar com as regras sociais e roupas apertadas. Tudo muda na vida da garota quando seu amigo de infância, Amon, retorna ao reino agora fazendo parte da força policial. Com o apoio de Amon, Raisa deixa sua confortável posição alienada e descobre as reais mazelas do reino, fazendo o possível para auxiliar a sanar esse problema, enquanto tenta não ficar presa nas teias políticas que regem sua posição.

Esses dois personagens tão diferente irão se unir de maneira inusitada, tornando-se parte de uma história curiosa e inusitada.

A primeira coisa a se notar a respeito desse livro são os personagens que acompanhamos. Os capítulos são intercalados por Hans e Raisa, sendo em algum momento ou outro contado por Amon. Fora o cabo (posição do Amon na hierarquia policial), que seria a ideia de um herói clássico de fantasia, os outros dois personagens não poderiam ser mais “fora da caixinha”. Hans é um rapaz que, apesar de um histórico que diga o contrário, não preenche os requisitos de um herói, muito menos de um anti-herói. Todas as suas ações sempre se baseiam em tentar proteger e defender sua família, mas acaba que tudo (inclusive ele mesmo) conspira para que o ex-ladrão acabe em problemas e dificuldades. É o tipo de personagem que o leitor facilmente se apega e se identifica por seu caráter mais humano e falho. Quem pode julgá-lo, levando a vida que o garoto levou?

Já Raisa não poderia ser a princesa mais fora do contexto de todas! Quando ela apareceu, eu logo revirei meus olhos pensando “Lá vamos nós, com mais uma Tomboy pra conquistar fãs”. Com o perdão do coloquialismo, essa foi a primeira “sambada” da autora. Raisa não é uma garota masculinizada que se faz de forte. Ela é sim uma princesa, que simplesmente não vê por que precisa parecer um bolo enfeitado pra agradar a todos, mas gosta sim de sua posição, inclusive usa dela para flertar e conquistar alguns garotos. Sim, Raissa tem sua lista de rapazes que, apesar de não ter ido às vias de fato, soube ter seus momentos de aproveitamento. Mas não pensem que ela é apenas “a princesa que se diverte com os meninos do reino”, ela é genuinamente preocupada com o reino e sabe usar de sua inteligência e de sua posição para auxiliar no desenvolvimento da cidade. Basicamente, Raisa é uma jovem consciente e humana! Ela sabe de suas obrigações, mas não é isso que a impede de ter seus momentos.

O encontro de ambos os personagens, além de ocorrer de uma forma deveras atípica, é algo que me agradou muito. Não tivemos o “amor a primeira vista” de um conto de fadas. Apesar de ter havido sim um interesse, que eu sinceramente relaciono aos hormônios adolescentes, creio que o sentimento que prevalece mais por ambos é o respeito e a curiosidade. Obrigado, Cinda, por me lembrar que adolescentes em fantasia podem ser iguais aos da realidade. E vale comentar também que após o encontro, cada personagem segue seu rumo, obrigado.

Outro aspecto muito incrível a ser relatado é o regime político ao qual Fells se submete. Diferente dos demais reinos, Fells é totalmente governado por uma rainha, podendo ter um consorte, que no caso é o pai de Raisa. Ou seja, mesmo com um Grão Mestre, um consorte e o capitão da Guarda para lhe aconselhar, temos uma figura feminina no poder do reino. Isso não é apenas incrível por representar um poder feminino, como transmite para a Raisa toda aquela pressão e ideia de sucessão, que geralmente é visto apenas em personagens masculinos!

A trama em si, para ser honesto, não é muito original. Para falar a verdade, eu fiquei sem saber a trama central por muito tempo, por que o foco do livro vai para os dilemas e vida dos dois personagens, e só descobrimos a real trama já pro final do livro. A “mitologia” e história do passado também acabaram deixando a desejar, mas como se trata de uma série, creio que os demais livros expliquem esses aspectos. O plot twist* da história também não é nada que seja surpresa, mas fica bem trabalhado e nos deixa ainda mais curioso a respeito do passado do Hans.

Para um primeiro livro, a série é bem concisa e desperta bastante o interesse do leitor. Foi uma abordagem bastante diferente e original do que eu, que sou um consumidor apaixonado de fantasia, estou acostumado. Era disso que sentia falta, de uma fantasia que, apesar de aspectos medievais, pode sim trazer inovações. Estou bastante animado para ler o restante da série!

– Uma vocação não é algo que você consegue cobrir ou disfarçar, como uma camada de tinta, e trocar sempre que quiser. Se tentar fazer outra coisa, você fracassa.

Plot Twist - A reviravolta. Algo que muda todo o rumo que a história estava levando. Pode ser tanto um acontecimento como uma revelação.

--- Marcel Elias ---

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