20 de setembro de 2015

Resenha: Número Zero por Umberto Eco

Antes de qualquer coisa, tenho que dizer que esse foi o meu début com o Umberto Eco. O autor italiano que possui obras cultuadas no universo literário, como "O Nome da Rosa", sempre foi uma incógnita para mim e depois dessa experiência que tive com o autor, tive que ansiar por mais.

Título: Número Zero
Autor: Umberto Eco
Editora: Record
Páginas: 208
Ano: 2015
Onde comprar: Saraiva | Submarino
O novo best-seller internacional de Umberto Eco. O romance que é um verdadeiro manual do mau jornalismo Um grupo de redatores, reunido ao acaso, prepara um jornal. Não se trata de um jornal informativo; seu objetivo é chantagear, difamar, prestar serviços duvidosos a seu editor. Um redator paranoico, vagando por uma Milão alucinada (ou alucinado numa Milão normal), reconstitui cinquenta anos de história sobre um cenário diabólico, que gira em torno do cadáver putrefato de um pseudo-Mussolini. Nas sombras, a Gladio, a loja maçônica P2, o assassinato do papa João Paulo I, o golpe de Estado de Junio Valerio Borghese, a CIA, os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos, vinte anos de atentados e cortinas de fumaça — um conjunto de fatos inexplicáveis que parecem inventados, até um documentário da BBC mostrar que são verídicos, ou que pelo menos estão sendo confessados por seus autores. Um perfeito manual do mau jornalismo que o leitor percorre sem saber se foi inventado ou simplesmente gravado ao vivo. Uma história que se passa em 1992, na qual se prefiguram tantos mistérios e tantas loucuras dos vinte anos seguintes. Uma aventura amarga e grotesca que se desenrola na Europa do fim da Segunda Guerra até os dias de hoje. 


Na linguagem do jornalismo, número zero é a edição experimental, onde os idealizadores de um projeto farão um protótipo daquilo que eles imaginam para apresentar a possíveis patrocinadores e leitores betas, antes de realmente o colocarem nas ruas. Umberto Eco traz esse conceito para o seu livro de uma maneira um tanto quanto sórdida, já que os seus protagonistas tem uma missão jornalística nenhum pouco louvável com essas edições: a de chantagear figuras importantes da Itália a fim de angariar apoio político para o investidor do projeto.  Intitulado de "Amanhã", o diretor do jornal tem como missão publicar textos que sejam atemporais e que deixem no leitor a sensação de que os jornalistas sejam espécies de videntes dado o grau de acertabilidade dos textos. Todavia, ninguém além do nosso protagonista e do redator-chefe sabem qual a verdadeira finalidade do jornal, e isso pode deixar todos em maus lençóis.

Ler "Número Zero" foi uma experiência diferente para mim, já que além de nunca ter lido nenhuma obra do autor e por isso ter altas expectativas, eu também estava sofrendo por não entender qual era a verdade por trás das intenções de Eco nessa história. Cá entre nós, fui fazer uma breve pesquisa a respeito da Itália na época em que o livro se passa, e só então comecei a olhar com outros olhos para a história. Isso porque estamos em meio a um cenário alucinante... morte do Papa João Paulo II, golpe de Estado, líderes de lojas maçônicas que buscam o auge na política, além de outros tantos acontecimentos que enriqueceram a trama sobremaneira.

E como se isso não bastasse, o autor buscou em fazer uma crítica ao jornalismo em sua trama. Principalmente, aquele que é feito sem transparência e que possui como meta manipular a sociedade e de quebra atingir a determinados nomes da política. Isso me soou muita familiar, pois não são raras as acusações e descobertas que temos aqui no Brasil nesse seguimento que deixam os ânimos tão acirrados que ao invés de retratações, esses problemas são resolvidos nos tribunais. Comparações à parte, tenho que dizer que esse desserviço jornalístico é trabalhado de forma mais exagerada do que supomos que ocorre e que até que se prove o contrário, deve ser visto como uma alfinetada e não como um retrato real do jornalismo atual.

Ademais, "Número Zero" é um livro curto, objetivo, mas que nem por isso deixa de ser interessante. Chega a ser engraçado que em uma história que se baseia nesses pilares, tenha um personagem como o Broggadocio que é o ápice do exagero em suas falas (ele parece que não toma um fôlego sequer quando começa) e manias. No entanto, apesar dele ser bastante caricato, com suas infinitas teorias de conspiração, ele traz um contraponto ideal para a história que por vezes perde o leitor em meio as suas páginas.  Com isso não quero dizer que o livro não tenha qualidade. Longe de mim, o que quero dizer é que esse é daqueles livros que requerem um estado de espírito do leitor para que a experiência seja completa com a narrativa do autor que é repleta de sarcasmo e ironia, e que entrega bem mais do que uma boa ambientação do país e um enredo que traz pontuações acertadíssimas a respeito da sociedade – ainda que não seja a brasileira.

Vivemos na mentira e, se você sabe que lhe estão mentido, precisa viver desconfiado.


--- Isabelle Vitorino ---

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