14 de outubro de 2014

Resenha: Quarenta Dias Sem Sombra por Olivier Truc

"Quarenta Dias Sem Sombra" é um livro bastante conceituado na Europa e vencedor de 15 prêmios internacionais – a partir daí vocês já podem imaginar a categoria da história da nossa resenha. Trazendo um clima ártico e um suspense dramático para suas páginas, o autor Olivier Truc me conquistou de tal maneira com a sua trama, que me deixou com gostinho de quero mais, muito mais histórias bem escritas como essa.

Livro: Quarenta Dias Sem Sombra
Série: Klement Nango #1
Autor: Olivier Truc
Editora: Tordesilhas
Páginas: 408
Ano: 2014
Onde comprar: Saraiva | Submarino
É a última noite polar na Lapônia. O sol voltará a brilhar após quarenta dias ausente. Todos esperavam o retorno do tambor sagrado, que, acredita-se, permite a comunicação com o mundo dos mortos. Mas o tambor é roubado, causando comoção na comunidade. Pouco depois, um criador de renas é encontrado morto e mutilado no meio da neve. A investigação dos crimes é liderada pelos policiais Klemet Nango e Nina Nansen. Os oficiais não poderiam ser mais diferentes entre si e precisarão enfrentar condições extremas de temperatura gélida e isolamento para resolver os mistérios. 

Depois de quarenta dias sem ver a luz do sol, os habitantes de Kautokeino – uma aldeia sami no norte da Noruega – estão muito ansiosos para a chegada desse momento tão esperado. Porém, faltando apenas um dia para o fim da noite polar, um tambor ancestral fora roubado do Centro Juhl – o museu onde ele seria exposto na semana da Conferência da ONU e onde seria discutido diversos temas relacionados à cultura sami. Os policiais da Polícia das Renas, Klemet Nango e Nina Nansen, são convocados para ajudar a desvendar o caso juntamente com os demais policiais da região. Só que algumas horas mais tarde, um pastor de renas conhecido do lugar, Mattis Labba, fora encontrado morto em sua tenda sem as orelhas, deixando no ar a pergunta: há alguma ligação entre esses dois crimes?

Sem nenhum sinal de quem tenha sido o culpado, os policiais ficam sem um rumo a tomar e nenhuma direção ou pista para conseguir desvendar esse duplo mistério. Pressionados politicamente, os casos têm de serem resolvidos antes da Conferência para evitar mais escândalos. Passando a correr atrás de toda e qualquer pista, os policiais começam a se cansar e a se sentirem confusos, já que se a princípio eles consideram a hipótese de ser um acerto de contas entre criadores de renas, pelo modo como as orelhas foram mutiladas, marcadas como as de um animal (semelhantes às orelhas das renas, que são retiradas depois de mortas), depois passam a considerar outras possibilidades quando descobrem que o assassinato foi realizado por outros motivos e que o tambor desaparecido está relacionado a nada menos que uma maldição que cerca aquele lugar.

Bom, tenho que começar elogiando o autor por ser tão fiel ao cenário que ele descreveu.  O clima ártico e suas auroras boreais me envolveram sem tirar nem por. E a história então, nem se fala. Não foi à toa que Olivier Truc ganhou 15 prêmios internacionais e seu livro foi eleito um dos cinco melhores livros policiais do ano que foi publicado. Sim, este é um livro policial, mas não deixa a desejar no quesito horror. Pois é nos expondo a uma trama que além de tratar sobre uma possível maldição envolvendo um tambor (que ganha um ar ainda mais misterioso com os seus cânticos jöiks) e dos conflitos religiosos e políticos que se veem mais “acalorados” com a chegada de geólogos ambiciosos que não medem esforços para colocar as mãos nas conhecidas riquezas minerais da Lapônia, que o autor constrói o seu fascinante e intrigante enredo.

No entanto, é certo que o leitor tem que ter paciência para apreciar a história, pois o autor conseguiu a façanha de fazer um “esquenta e esfria”, que tanto conseguia ser instigante em alguns momentos, quanto cansativo em outros. Principalmente porque seus personagens às vezes acabavam indo para uma direção mais longe do que aquela que eles deveriam ir. Mas isso com certeza vai melhorando com o decorrer da leitura. Digo isso porque nas últimas 100 páginas eu quase esqueci de respirar de tão empolgante que a história ficou e acabei me deixando levar pelo raciocínio – por vezes, errôneo – dos seus personagens, sem sequer perceber.

Tendo a vantagem de o autor ter alternado os pontos de vista, uma hora o leitor se vê dentro da história contada pelos suspeitos, e outra na dos mocinhos. Por ter muitos personagens misteriosos, isso acaba sendo bem bacana, já que acabamos nos aproximando mais da verdade com relação a todos os segredos sombrios que eles escondem. A riqueza de detalhes que ele inseriu na trama também é algo notável. Principalmente no que concerne a organização religiosa existente dentro dessa comunidade, já que ele consegue explorar tanto o lado místico relacionado à cultura lapona (com suas superstições e maldições ancestrais), quanto o lado dos camponeses (pessoas vindas de crenças luteranas, rígidas) e daqueles que não possuem nenhuma orientação religiosa.

Imagino que vocês devam estar achando um pouco chato esse papo de religião, mas acho importante frisar isso principalmente porque o desenvolvimento dos acontecimentos vem, em sua maior parte, desse fator. Mas não se preocupem, pois autor não se restringe a esse aspecto. Ele também nos apresenta a uma Escandinávia bem menos pura e branca, com conflitos políticos (causados, em sua maioria, por questões ligadas a terra), maus-tratos e abusos sexuais a jovens menores de idade, racismo em relação à religião e demais aspectos do seu povo nativo. Certamente, uma abordagem bem diferente da habitual dos livros desse gênero que por vezes focam apenas no crime e no criminoso. Em pensar que esse é o primeiro livro de ficção do Olivier Truc... Para um iniciante, ele fez uma estreia incrível, pontuada com muita criatividade e talento. Sinceramente? Seu livro está entre os meus favoritos!

– Quando se sabe o que uma caderneta de geólogo precisa conter, o que não deve estar lá nos salta os olhos. Pag. 249

Playlist:


--- Juliana Gueiros ---

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