25 de abril de 2014

Resenha: O Sal da Vida por Françoise Héritier

Você já parou para pensar em todas as pequenas coisas que moldam quem você é, mas que não se encaixam nas suas descrições físicas e nas definições de sua personalidade? Não? Então, você precisa conhecer “O Sal da Vida” para perceber que os pequenos acontecimentos de nossa vida são os verdadeiros e grandes responsáveis por sermos quem somos.

Título: O Sal da Vida
Autor (a): Françoise Héritier
Editora: Valentina
Páginas: 112
Ano: 2013
Onde comprar: Saraiva | Submarino
Nesta meditação, nessa espécie de poema em prosa em homenagem à vida, totalmente íntimo e sensorial, a renomada antropóloga Françoise Héritier vai atrás das pequenas coisas agradáveis (às vezes nem tanto) às quais aspira o mais profundo do nosso ser: as imagens e as emoções, os momentos marcados de recordações que dão sabor à vida, que a tornam mais rica e mais interessante do que muitas vezes acreditamos que ela seja e que nada nem ninguém poderá nos tirar, nunca, jamais!

Recordar os acontecimentos de nossas vidas é uma forma de revivê-los uma e outra vez sem jamais esquecer as alegrias, as tristezas, os sorrisos, as lágrimas, o tempero que faz a nossa vida tão peculiar e que nos torna especial em meio a uma multidão. Com relatos de seus próprios momentos a antropóloga Françoise Héritier nos mostra através de “O Sal da Vida” que cada um de nós possui tesouros que pertencem somente a nós. Sempre evocando imagens, ela traz um quê de poesia em seu livro que nos encanta, diverte e que nos faz refletir e viajar. Sua ode a vida e a existência é uma encantadora forma de não se deixar abater pela correria do dia a dia e pela mesmice que nos ronda constantemente. Apesar de curto, é um livro rico que tocará de forma muito particular a cada um de seus leitores.

E como não poderia ser diferente, deixo aqui o meu próprio registro. Espero que vocês se animem e também deixem os seus.

O Sal da Vida para mim é... sentir o cheiro da chuva e ouvir o seu gotejar, relembrar aquela partida de futebol com amigos cuja língua você não conhecia e que aconteceu em um país longínquo com pés descalços tocando a grama, admirar a grandeza criada pelo seu arquiteto favorito, sorrir de antecipação toda vez que o carteiro chega, desbravar lugares inóspitos e perceber que todo o cansaço para chegar até ali valeu a pena, beber água quando se está com muita sede, iniciar uma conversa com alguém sobre livros e notar que ao fim você fez um monólogo, magoar-se diante das injustiças feitas, ter um humor terrível quando se é acordado e ainda está com sono, saborear um café fresco em um dia particularmente frio, comemorar cada etapa conquistada no processo de aprendizagem de um novo idioma, acariciar um livro só porque gostou da sua textura, gargalhar com a forma doce que seu cachorro tem de chamar a sua atenção.

... confortar-se com o abraço apertado da sua mãe, admirar a coragem do seu pai, amar as suas irmãs de forma incondicional e apreciar suas peculiaridades, fechar os olhos para não ver o precipício pela janela do seu lado do carro, notar que finalmente sua alma achou o seu lugar quando sentiu a carícia do vento em território espanhol, ter a sensação de frio no estômago com o decolar do avião por saber que uma nova aventura lhe aguarda, tentar decorar a letra de uma música que você gosta muito, apaixonar-se por uma cidade de arquitetura encantadora e de pessoas ainda mais encantadoras, conhecer pessoas que lhe completam, brincar com as crianças de uma amiga e ter vontade de ter seus próprios bebês, dançar até o sol raiar e passar todo o dia posterior sem conseguir levantar da cama com dores pelo corpo, deliciar-se com o sabor rico do chocolate nos dias de TPM, rir de piadas que ninguém entende, ficar desesperada com o número de coisas que estão querendo sair do seu armário e ainda assim querer aquele suéter de cor bonita que viu na vitrine.

E ainda... passar noites de insônia na companhia de um bom livro, amar com fervor o personagem de uma história fictícia, comemorar quando encontra as palavras certas para dizer ou escrever, preocupar-se com o seu futuro, mentalizar a casa dos seus sonhos e fazer projetos arquitetônicos que nunca ganharão forma real, dormir no sofá porque não teve coragem de se levantar para ir para o quarto, fechar os olhos ao sentir a brisa do mar em seu rosto, corar ao receber um olhar de admiração de alguém que você própria admira, saber de cor todas as letras de sua banda favorita, ter poucos e bons amigos, querer fazer uma tatuagem mas nunca ter coragem de fazê-la, conservar um cabelo comprido e invejável, apertar os olhos para enxergar alguma coisa em um ambiente muito claro, fechar um livro com a certeza que ele lhe proporcionou uma experiência memorável.

O acontecimento se vai, levanta voo, mas o essencial fica gravado no corpo e ressurge com o charme furtivo de uma evocação, com o frêmito de uma sensação, com a força surpreendentemente viva e às vezes incompreensível de uma emoção. Págs. 94 e 95

Playlist:


--- Isabelle Vitorino ---

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