3 de fevereiro de 2014

Resenha: Enfeitiçadas por Jessica Spotswood

Livros sobre bruxas são sempre envoltos de muito mistério, mas em ‘Enfeitiçadas’ a autora promete ir além e abordar a temática em uma sociedade refém do medo imposto pelos seus representantes. Por isso se você gosta de histórias que transcendem o universo sobrenatural e trabalham outras questões, não deixe de conferir essa resenha até o final.

Título: Enfeitiçadas
Série: As Crônicas das Irmãs Bruxas #1
Autor (a): Jessica Spotswood
Editora: Arqueiro
Páginas: 272
Ano: 2014
Onde comprar: Saraiva | Submarino
Antes do alvorecer do século XX, um trio de irmãs chegará a idade adulta, todas bruxas. Uma delas terá o dom da magia mental e será a bruxa mais poderosa a nascer em muitos séculos: ela terá poder suficiente para mudar o rumo da história, para suscitar o ressurgimento do poder das bruxas ou um segundo Terror. Quando Cate descobre esta profecia no diário de sua mãe, morta há poucos anos, entende que precisa repensar seus planos. Qual será a melhor opção: servir a Irmandade, longe dos olhos vigilantes dos Irmãos Caçadores de Bruxas, aceitar uma proposta de casamento que lhe garanta proteção e segurança ou abandonar tudo e viver um grande amor proibido?

Cate é uma garota de dezesseis anos que não sabe mais o que fazer para lidar com todas as responsabilidades que sua mãe deixou após sua morte. Ela se sente confusa e desorientada, principalmente porque precisa manter em segredo uma realidade que pode destruir sua família: ela e suas irmãs são bruxas. Isso não seria um problema se a bruxaria não fosse terminantemente proibida pelos Irmãos e punida com um rigor que poderia fazer da morte, uma opção desejada. Contudo, suas irmãs desejam a magia na mesma proporção que ela passa a odiá-la. Como consequência disso, o risco de serem descobertas passa a ameaçar o seu futuro, já que só lhe resta poucos meses para que ela tenha que decidir se irá servir a Irmandade, um grupo religioso só para mulheres, ou se irá casar e ser levada para longe de suas jovens irmãs. Com os dias transcorrendo cada vez mais depressa, Cate tenta entender a natureza de sua magia ao mesmo tempo em que um inesperado amor surge em sua vida fazendo-a repensar sobre todas as possibilidades que a rodeiam e até onde ela é capaz de ir para proteger sua família.

Desde a primeira página fica bem claro para o leitor que a autora Jessica Spotswood levará o tempo que for necessário para contar a sua história. Com uma escrita simples, ela narra em primeira pessoa a jornada de Cate e suas irmãs em meio a uma sociedade que é conduzida pelas mãos firmes dos Irmãos – homens que pregam uma fé distorcida através da imposição da submissão das mulheres, onde eles não só comandam suas vidas, como também, oferecem poucas escapatórias para aquelas que nasceram com um poder que eles temem: a bruxaria. Por ter um caráter muito introdutório, o início do livro é moroso e por vezes deixa o leitor frustrado, com a forma com que a autora demora a trazer à tona as reviravoltas necessárias para fazer com que o enredo se tornasse mais agradável e instigante. Contudo, após meados da página 100 ela se redime e começa a mostrar toda a densidade da história das irmãs Cahill.

Além de herdar a responsabilidade de cuidar de Maura e Tess, Cate – a mais velha das irmãs – precisa mantê-las unidas e seguras para que não sejam descobertas por ninguém. Entretanto, essa missão torna-se cada vez mais difícil por ela não ter a mínima noção de qual o caminho ela deve seguir. A perspectiva de encontrar o diário perdido de sua mãe, acende nela uma chama de esperança por achar que lá estão as respostas que ela tanto busca, porém, a realidade é outra e a descoberta de uma profecia coloca Cate em um labirinto de dúvidas que parece ficar cada vez mais sem saída quando ela se aproxima de Finn. 

Todas essas obrigações que ela tem que lidar, acaba conferindo a personagem um jeito chato e controlador que deixa qualquer leitor irritado com ela. Principalmente porque ela quer que todo mundo a entenda, mas nunca se permite ouvir o que as outras pessoas tem a dizer. As maiores vítimas desse seu modo de agir são as suas irmãs. Tess, por ser a mais nova e também a mais doce, acata melhor as decisões que Cate toma, já a Maura não deixa barato as imposições de sua irmã e por ser mais rebelde, não perde a oportunidade de seguir seu próprio coração. Gostei bastante das duas, elas tem personalidades tão distintas, mas ao mesmo tempo tão encantadoras, que por vezes conseguiram ofuscar a própria protagonista.

Além disso, a autora insinua um triângulo amoroso no enredo geral, mas não é isso o que acontece durante a narrativa (e eu dei graças por isso). Confesso que no início senti que o romance estava um pouco forçado, mas com o decorrer das páginas a autora apresenta melhor o Finn e podemos ver várias nuances de sua personalidade que o tornam extremamente encantador. Acredito que isso ajudou sobremaneira no impacto que as últimas páginas tiveram sobre mim, já que depois de um pico de revelações estarrecedoras, a autora vai construindo a conclusão do primeiro volume de ‘As Crônicas das Irmãs Bruxas’ de modo que faz com que o leitor se negue a aceitar que ela irá fazer aquilo com os personagens, mesmo quando é certo que ela o fará. 

Se analisado de modo geral, é esse conjunto de pequenos defeitos na narrativa e qualidade na história, que fazem de ‘Enfeitiçadas’ um livro para ser lido com paciência e tranquilidade, pois apesar de ter poucas páginas ele não é fácil de ser lido e proporciona ao leitor muitas coisas nas quais refletir. Principalmente, se levarmos em consideração as questões que a autora aborda de forma tão clara: a submissão da mulher e o uso da fé para influenciar uma sociedade. Dessa forma, não há outra maneira de classificá-lo que não seja como um livro com mais acertos que erros e que conquista o leitor por trazer à baila outros temas que completam com perfeição o universo sobrenatural das bruxas. Certamente, uma leitura mais do que recomendada!


 [...] não gosto de ser forçada a fazer nada. Por mais segura e bonita que seja, uma jaula é sempre uma jaula. Pág. 175

Playlist:


--- Isabelle Vitorino ---

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