Resenha Especial: Mary Poppins por P. L. Travers

I'm back b... uddies! Vamos fingir que não estive fora por eras e que ainda estamos na semana das crianças. Então abram seus guarda-chuvas e peguem carona com o vento do Oeste para essa história tão agridoce e atípica com a babá mais esquisita e egocêntrica da literatura. Com vocês, Mary Poppins!

Título: Mary Poppins
Autora: P. L. Travers
Editora: Zahar
Ano: 2017
Páginas: 192
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Carregando uma maleta e um guarda-chuva, Mary Poppins entra em cena voando. Literalmente. Gravada no imaginário das crianças de várias gerações, essa chegada fabulosa da peculiar babá da família Banks abre as portas para muitas outras surpresas e aventuras, como a história da Vaca Dançante, o aniversário no zoológico, um chá da tarde nos ares, delicados remendos no céu noturno... Mary Poppins é durona e misteriosa - e absolutamente irresistível. Publicado em 1934, o livro foi um sucesso imediato e desde então fascina leitores de todas as idades - sobretudo após a adaptação de Walt Disney para o cinema. Essa edição inclui todas as ilustrações originais de Mary Shepard e conta com tradução, apresentação e notas do escritor Joca Reiners Terron, além de cronologia de vida e obra de P.L. Travers. Como extra, traz ainda uma palestra da autora sobre (não) escrever para crianças.

Creio não ter sido a única criança dos anos 90 que cresceu cantando sobre como uma colher de açúcar ajuda o remédio a descer melhor, que devemos alimentar os pássaros e que quase engoliu a língua tentando falar Supercalifragilisticexpialidocious (pareço legal, mas até hoje não sei falar isso). Pois bem, que Julie Andrews encantou a todos nós sendo a severa, porém, amável babá, disso todos nós sabemos. Mas eis minha grata surpresa ao, depois de mais velho, rever esse filme com cheirinho de infância e descobrir que ele era uma adaptação literária! E melhor ainda, que ele seria lançado também pela minha editora "fave" da vida (muito tiete de seu Jorge Zahar, sim, senhor)!

Então, lá fui eu, com meu pequeno Marcel interior, crendo que mais uma vez mergulharíamos naquela meiga história infantil para nos maravilharmos novamente com a doce inocência do enredo. No entanto, não foi bem assim que aconteceu... Não é que a história tenha um viés completamente averso a sua adaptação, mas aquela Mary Poppins firme - e ao mesmo tempo que carinhosa -, que nos foi apresentada por Julie Andrews, estava longe de ser a verdadeira faceta da aba mais famosa da literatura. 

Deveras vaidosa, a um nível quase arrogante, bem irritadiça e com uma resposta seca na ponta da língua, essa Mary Poppins - apesar de ter sim apreço pelos pequenos, não me pareceu muito disposta a adoçar um remédio amargo. Apesar da mudança brusca na personalidade da amada personagem ter me causado uma estranheza inicial, devo admitir que essa nova nuance da babá me divertiu bastante. Vê-la tão orgulhosa de sua própria imagem e trocando farpas com as crianças deu um ar muito mais real e até cômico a personagem. 

A verdade é que mesmo esse aspecto mais "negativo" da personagem literária não a faz perder sua identidade. Afinal  de contas, ela continua sendo a babá que acredita no bom comportamento. Além disso, as crianças a adoram, pois sabem que ela nunca as deixará, nem será uma pessoa negligente, como seus pais são desde que eles possam se lembrar. É bem clara a relação de troca das quatro crianças e de sua cuidadora: as crianças se sentem felizes com ela, pois além de Poppins trazer a aura maternal que eles tanto precisam, os permitem viver situações incríveis.

E como se tudo isso não bastasse, a sua mágica transborda das páginas e alcança o leitor com cenas dignas de deixar até mesmo Lewis Carrol interessado... Afinal, quem poderia afirmar que existe uma babá que flutua, entra em pinturas, conversa com animas e bebês, pega estrelas do céu e faz vacas dançarem? Dá vontade, né Alice?

Por fim, não são apenas de coisas nonsense e doses de humor ácido que sobrevivem os leitores de Mary Poppins. Por trás de todo o ar lúdico e criativo, a autora quis satirizar a metodologia educacional que a classe média inglesa impunha a seus filhos, bem como abordar tópicos como o fim da inocência, responsabilidades e que, acima de tudo, crianças não são meros adornos domésticos como alguns pais da época tratavam. Em suma, é uma obra divertida e leve, mas que pode concentrar uma bela dose de ensinamentos aqueles que estiverem dispostos a mergulhar fundo nas entrelinhas do texto de P. L. Travers.

Depois do jantar, Jane e Michael se sentaram na janela à espera do sr. Banks voltar para casa, e ouviram o som do Vento Leste soprando através dos galhos nus das cerejeiras na rua. As próprias árvores, girando e se mesclando à meia-luz, pareciam ter enlouquecido e dançavam, arrancando suas raízes do chão. […] No instante em que a silhueta passava pelo portão, o vento pareceu levantá-la no ar, atirando-a perto da casa.

--- Marcel Elias ---

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