Resenha Especial: Morella por Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe é sempre uma leitura interessante, principalmente nos seus escritos que tratam sobre a morte e a vitória sobre ela. Em "Morella" é possível encontrar isso e muito mais.


Título: Morella
Livro: Contos de Imaginação e Mistério
Autor: Edgar Allan Poe
Editora: Tordesilhas
Ano: 2012
Páginas: 183-190 (424)
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Morella era uma mulher diferente de todas que ele já conheceu. Com uma educação excepcional, ele estava encantado com o que ela podia lhe oferecer. Seus olhos misteriosos, bem como, seus pensamentos, o impeliam a querer aquela mesma devoção que ela tinha. Mas nem mesmo seu desejo de sentir aquilo que sua esposa sentia foi suficiente para fazer com que ele alcançasse aquilo que tinha. Afastando-se lentamente dela, tudo o que ela representa passa a incomodá-lo a tal ponto que Morella nota a falta de amor nele. Aguentando com resiliência aquele casamento estilhaçado, em seu leitor de morte ela lhe diz que a sua partida não era o fim e que tudo o que ele deixou de sentir por ela em vida, retornaria após a sua morte. Ele atribui seu prenúncio unicamente ao delírio de alguém que está prestes a morrer. Entretanto, quando se dá conta do que ela falou correspondia com perfeição a realidade que ele passa a viver, não há nada mais a ser feito senão aceitar o seu destino funesto.

Em "Morella" somos guiados por uma trama melancólica que tem como principal tema os mistérios da morte e da metempsicose (reencarnação). Tudo começa com o impacto inicial de estarmos diante de uma relação que se dá através da conveniência de ambos terem se casado. Não há amor, apenas admiração. Entretanto, nem isso é capaz de evitar que o relacionamento se torne gradualmente um inconveniente para o protagonista que passa a ter uma profunda aversão por tudo o que a sua mulher representa. Isso acontece em grande medida pela erudição de Morella se tornar enfadonha para ele, de modo que o que antes era um dos propulsores para que estivessem juntos, se torna algo incômodo e que não merece mais qualquer tipo de consideração. O peso dessa relação é tão palpável que o leitor se sente tão preso quanto àqueles personagens em uma vida que se mostra sem sentido.

A verdade é que sempre que leio algo escrito por Poe tento analisar além do que ele colocou nas páginas. Por isso, a interpretação extensiva se tornou um exercício que gosto de fazer para poder expandir o meu entendimento sobre as suas histórias. Neste conto, mesmo tendo esse aspecto fúnebre de morte, podemos trazer para "Morella" o sentido extraído por Christine Cavalier para esta história. Sendo uma interpretação feminista, a escritora diz que o intuito do autor consiste em conceder a mulher uma vitória sobre um homem que não a respeita por ela possuir uma educação superior à dele e por isso, ter uma erudição e inteligência mais desenvolvida. Seria, pois, um caso em que a misoginia teria perecido diante do poder de uma mulher. Sem sombra de dúvidas, esse é uma maneira de ler essa história deveras interessante, entretanto, acredito que um pouco infundada, pois por mais que o final do conto conceda a Morella uma certa vingança pela vida medíocre que lhe foi oferecida, a época em que Poe viveu não permitiria que esse tipo de intenção norteasse inteiramente um escrito seu.

Por mais que goste de pensar nele como alguém a frente do seu tempo, continuo inclinada a ver este conto como mais um caso em que o autor explora a linha tênue não só entre vida e morte, como também, na possibilidade de continuar vivendo ainda que não em seu próprio corpo. Essa minha inclinação de pensamento é tamanho que costumo dizer que a morte foi a grande protagonista de Edgar Allan Poe e a cada mergulho que dou na sua obra mais certeza tenho de que isso é verdade. Não entendo o que lhe motivou a chegar a esse ponto, mas ao saber de tantos infortúnios que ele sofreu durante a sua vida é possível perceber que apenas uma pessoa extremamente forte não sucumbiria a loucura. E mesmo que esse não seja um dos meus contos favoritos do autor, ainda assim o recomendaria para aqueles que tem curiosidade sobre a metempsicose e sobre a abordagem que o autor faz do tema.

"Eis o dia dos dias", disse ela; "o dia dentre tantos outros dias para se viver ou morrer. É um belo dia para os filhos da terra e da vida – ah, mais belo ainda para as filhas do céu e da morte!" - Pág. 186

--- Isabelle Vitorino ---

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