Resenha Especial: Os Sofrimentos do Jovem Werther por Johann Wolfgang von Goethe

Estamos em plena pandemia e, segundo a maioria das pessoas, seria melhor realizar leituras leves. No entanto, me prôpus a realizar leituras que durante muito tempo eu adiei, como é o caso de "Os Sofrimentos do Jovem Werther", a obra precursora do romantismo e que me deixou completamente rendida aos meus sentimentos mais profundos.

Título: Os Sofrimentos do Jovem Werther
Autor: Johann Wolfgang von Goethe
Editora: Estação Liberdade*
Páginas: 200
Ano: 2009
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Sinopse: O romance mais famoso da literatura alemã, "Os sofrimentos do Jovem Werther" é a história (contada em cartas) de uma paixão cujo limite é a própria morte. É a negação de um homem em relação à sociedade e ao mundo despido dos valores emocionais. Quando de seu lançamento em 1774, esta obra-prima gerou uma onda de suicídios entre os jovens que se identificavam com o destino trágico de Werther.

Werther é um jovem de boa família, culto e que após viajar para o interior da Alemanha, acaba se estabelecendo em um local tranquilo e bucólico, onde logo se integra à sociedade local e encontra nos habitantes verdadeiros amigos. Com o decorrer dos dias e cada vez mais habituado aquela paisagem paradisíaca, ele é convidado por uma amiga para um baile nas imediações, porém, o que ele não esperava era que a partir deste convite ele conheceria o amor da sua vida. Charlotte é uma mulher bela e delicada que após o trágico falecimento da sua mãe passou a cuidar, com devoção materna, dos seus irmãos pequenos e do seu pai. Prestes a casar, Lotte encontra em Werther um verdadeiro amigo, que está disposto não só a lhe fazer companhia em todas as situações, como também a amá-la fervorosamente, como bem demonstra em cada ato. No entanto, ainda que esse amor fosse correspondido, ele jamais poderia ser concretizado, já que ela está noivo de Albert e não cogita o término do enlace.

Inicialmente, tenho que pontuar que "Os Sofrimentos do Jovem Werther" é um romance epistolar, tendo em Werther o narrador principal e em Wilhelm, amigo devotado do jovem, o principal destinatário das cartas. Dessa forma, é difícil pontuar quais são os sentimentos verdadeiros de Charlotte, já que aquilo que é informado para o leitor passa apenas pelo filtro de percepções do protagonista. Sendo uma narrativa que traz ideias que fomentaram o romantismo alemão e que compõe o movimento denominado Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), que se contrapõe de maneira contundente ao racionalismo iluminista observado na França, há fortes colocações que demonstram o poder violento da natureza, em especial, da necessidade de pautar a vida nas emoções verdadeiras e naquilo que o coração deseja de forma pujante. Isto é, deixando-se levar pelo amor em contraposição a frieza das convenções sociais.

Acompanhar Werther na busca por viver um amor que torna-se a sua vida é algo doloroso e nada fácil, pois é com uma narrativa lírica que Goethe conduz o leitor até o âmago dos sentimentos de um homem que, cada vez mais entregue ao que sente e vendo a impossibilidade de concretizar esse amor, vai perdendo aos poucos o gosto pela vida e conduzindo o seu estado de espírito conforme aquilo que obtém de Lotte. Ele absorve cada gesto e palavra dela como se fosse um alimento que ele necessita para estar vivo. Essa profusão de sentimentos se intensifica principalmente pelo leitor não conseguir vislumbrar de maneira clara aquilo que se passa pela mente e coração de Charlotte, de modo que há uma dificuldade em entender as interpretações de Werther.

Por óbvio que não se pode esquecer que esta é uma obra romântica, porém, os não habituados com esta narrativa podem ter certa dificuldade em se sentirem confortáveis com a exposição de um amor desmedido, intenso e que coloca o ser amado no centro de tudo, de modo que a impossibilidade de viver esse amor traz consigo uma grande melancolia e tormento ao espírito. E é no tocante a este aspecto que a obra ganha ares cada vez mais pesados, já que a medida que Werther descobre da existência de Albert e percebe que o caráter firme de Charlotte jamais a permitiria romper esse compromisso, seus pensamentos vão se tornando cada vez mais sombrios. Logo, as cartas antes alegres e que narravam um belo amor, passam a conter a descrição de uma mente e coração perturbados pela impossibilidade de realizar aquilo que mais deseja.

A mente de Werther aos poucos vai tomando direções que indicam o seu entristecimento e demonstram que mais do que uma simples tristeza, Goethe trata sobre temáticas muito importantes como a depressão e o pensamento suicida. Para tanto, o autor descreve a ausência de propósito que passa a reger a vida do personagem, bem como os calorosos debates que ele tem a respeito da possibilidade do homem, desgostoso da sua vida, optar por não mais vivê-la. Em complemento à isso, há a indicação de dois personagens muito peculiares e que mostram que o amor descrito naquelas páginas poderia levar à loucura ou à morte. A intensidade do texto e o seu poder social foram tamanhos que, em virtude dos muitos suicídios que ocorreram após a publicação da obra, as mortes foram atribuídas ao denominado efeito Werther.

Ademais, o incômodo com a leitura se torna ainda maior com a informação de que esta história foi baseada primordialmente naquilo que duas pessoas viveram no mundo real, o próprio Goethe, o que rendeu rumores de que a obra era autobiográfica, e de Karl Jerusalem, já que ambos se apaixonaram por mulheres casadas. No entanto, "Os Sofrimentos do Jovem Werther" incomoda acima tudo, por nos mostrar o quão intensos podem ser os sentimentos humanos que, despidos da razão e entregues tão somente às amarras do coração, podem nos conduzir por um caminho doloroso e que não nos permitiria escapatória a não ser senti-los em sua potência máxima. É uma obra fundamental e que merece ser lida por todo aquele que busca por textos intensos, com alta carga dramática e com grandes questões filosóficas.

“A natureza humana”, prossegui, depois de breve pausa, “tem seus limites; pode suportar até certo ponto a alegria, a mágoa, a dor, mas passando deste ponto ela sucumbe. A questão não é, pois, saber se um homem é fraco ou forte, mas se pode suportar o peso dos seus sofrimentos, quer morais, quer físicos. E eu acho tão espantoso que se chame de covarde ou de desgraçado àquele que se priva da vida, como acharia impertinente tachar de covarde ao que sucumbe a uma febre maligna.”

* Li a obra fazendo o cotejo em duas traduções distintas, quais sejam, a da Estação Liberdade (livro físico) e a da L&PM (livro digital - Kindle Unlimited), e, em que pese eu prefira a segunda por possibilitar uma verdadeira imersão na obra, que não consegui com a linguagem mais atualizada da primeira, esta ganha pontos por não tentar traduzir os nomes contidos na obra original. Assim, caso você tenha lido na edição da L&PM, Charlotte é Carlota e Wilhelm é Guilherme.

--- Isabelle Vitorino ---

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