Resenha Especial: O Demônio da Perversidade por Edgar Allan Poe


Conto: O Demônio da Perversidade
Editora: DarkSide
Ano: 2018
Páginas: 240
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"O Demônio da Perversidade" é um conto que começa como um ensaio escrito pelo autor americano do século 19, Edgar Allan Poe. Ele discute impulsos autodestrutivos do narrador, incorporados como o Demônio da Perversidade. O narrador descreve esse espírito como o agente que tenta a pessoa a fazer as coisas "simplesmente porque sentimos que não devemos.

Em um primeiro momento, acredito que o leitor que ambicione conhecer a fundo o conto "O Demônio da Perversidade" precisa vislumbrar as primeiras linhas do texto como uma guia imprescindível para compreender o personagem-narrador. Isso, porque, é a partir da abordagem sobre frenologia que (em apertada síntese pode ser traduzida como sendo um estudo - atualmente considerado uma pseudociência - idealizado por Franz Joseph Gall sobre a formação craniana dos seres humanos, cujos resultados seriam capazes de demonstrar não só característica ligadas ao caráter, como também as aptições mentais) o autor demonstra as nuances da mente do protagonista.

Mas não só isso, o autor também tece diversas considerações a respeito do desejo interno do ser humano em realizar atos proibidos, que só encontra limites em fatores antagonistas para a sua não realização, como, por exemplo, o desejo incutido pela perversidade como contraponto a razão. Alguns estudiosos de Poe, afirmam que essa abordagem traz elementos a respeito das teorias do subconsciente e da repressão, trabalhadas posteriormente por Freud.

Todavia, é interessante observar que Edgar Allan Poe coloca este ponto, de modo a fundamentar as ações do seu protagonista, haja vista que o narrador, que em nenhum momento revela detalhes sobre a sua identidade, cometeu um crime, foi pego por isso e sustenta que só agiu da maneira que agiu em virtude do denominado demônio da perversidade que lhe tirou qualquer possibilidade de fuga de um destino que parecia já estar traçado.

Um dos pontos mais relavantes do conto encontra-se justamente na abordagem que o autor faz a respeito das motivações que levaram o personagem a confessar o crime, bem como a incerteza que o cerca sobre aquilo que virá após ele se libertar dos grilhões que o mantém aprisionado. Em nenhum momento o leitor é inteirado dos detalhes da condenação, tampouco a que tipo de pena ele foi sentenciado. É possível conjecturar, portanto, que a liberdade que o personagem teme estaria ligada ao que o esperaria após a morte, o que seria o indício de que tinha sido condenado a alguma tipo de pena que lhe ceifaria a vida.

No entanto, como mencionei anteriormente, tudo não passa de conjecturas, haja vista que Edgar Allan Poe foi misteriosamente conciso neste conto nas ações e reações do personagem e prolixo no escrutínio dos pensamentos do mesmo no que se refere a sua motivação para cometer o crime. Acredito que foi esse pequeno detalhe que me incomodou sobremaneira, gostaria de ter mais detalhes a respeito não só do protagonista e o seu envolvimento com a vítima, mas também dos temores que ele claramente sentia, por temer aquilo que estava por vir, como o autor fez em "O Poço e o Pêndulo".

Em que pese o autor tenha resolvido toda a problemática de "O Demônio da Perversidade" em poucas páginas, como vocês já devem imaginar, essa não seria uma justificativa que eu utilizaria para deixar de recomendar este conto, afinal, mais uma vez Poe é preciso em nos colocar diante dos nossos próprios medos, dessa vez o temor pela consequência de um ato atraz parece ditar o tom para essa história que em sua essência também trata de morte, mas por um prisma de libertação - ainda que não se saiba onde essa liberdade levará o narrador. Em uma palavra? Leiam.

[...] Se não conseguimos compreender Deus em suas obras visíveis que dirá elucidar os pensamentos inimagináveis que inspiraram tais obras. Se não podemos compreendê-Lo em suas criaturas objetivas, como alcançar seus humores substanciais e suas fases de criação? - Pág. 86

--- Isabelle Vitorino ---

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