11 de outubro de 2013

Resenha: Coraline por Neil Gaiman

Coraline é um daqueles raros livros que se prendem a nossa memória e que jamais nos abandonam. Tendo feito parte da minha infância e da minha formação como leitora, nada mais justo do que eu falar um pouco deles pra vocês à véspera do dia das crianças. Quem sabe eu não consigo animá-los para lê-lo também?

Título: Coraline
Autor: Neil Gaiman
Editora: Rocco
Páginas: 160
Ano: 2003
A história de Coraline é de provocar calafrios. A narrativa dá muitas voltas e percorre longas distâncias, criando um ‘outro’ mundo onde todos os aspectos de vida são pervertidos e desvirtuados para o macabro. Ao mesmo tempo sutil e cruel, o autor gosta de desafiar as imagens simples dos livros infantis tradicionais. No livro, a jovem Coraline acaba de se mudar para um apartamento num prédio antigo. Seus vizinhos são velhinhos excêntricos e amáveis que não conseguem dizer seu nome do jeito certo, mas encorajam sua curiosidade e seu instinto de exploração. Em uma tarde chuvosa, a menina consegue abrir uma porta que sempre estivera trancada na sala de visitas de casa e descobre um caminho para um misterioso apartamento ‘vazio’ no quarto andar do prédio. Para sua surpresa, o apartamento não tem nada de desabitado, e ela fica cara a cara com duas criaturas que afirmam ser seus “outros” pais. Na verdade, aquele parece ser um “outro” mundo mágico atrás da porta. Lá, há brinquedos incríveis e vizinhos que nunca falam seu nome errado. Porém a menina logo percebe que aquele mundo é tão mortal quanto encantador e que terá de usar toda a sua inteligência para derrotar seus adversários.

Coraline é uma garotinha que acaba de se mudar, com pais muito ocupados para distraí-la, ela faz o possível para encontrar novas aventuras para lhe entreter. Contudo, seu mais novo lar não é muito divertido, e mesmo que seus vizinhos a estimulem a continuar suas explorações, ela não encontra muitas coisas para fazer que realmente a divirtam. Sem amigos e com a companhia apenas de sua própria imaginação, em uma tarde chuvosa ela decide que vai descobrir qual o segredo que ronda uma estranha porta que aparentemente não leva ninguém a lugar algum. Aproveitando que sua mãe não estava em casa e que seu pai não fazia nada mais que trabalhar, ela surrupia a chave que abre fechadura e se empenha em desvendar o mistério contido por trás daquela porta.

Contrariando até suas próprias expectativas, quando Coraline gira a maçaneta ela não vislumbra uma parede como era o esperado, mas sim um corredor escuro que certamente a levaria a um lugar mais interessante do que o seu próprio apartamento. Sem se deixar abater pela sua apreensão, ela segue no escuro até achar uma saída. Ela só não esperava que quando a encontrasse se depararia com um lugar que não só se parecia exatamente igual ao seu apartamento, como também, com criaturas que se assemelhavam em aparência aos seus próprios pais. Tendo ao seu dispor coisas divertidas para brincar e uma boa comida para comer, por um momento ela pensa que aquele estranho lugar é melhor que o seu próprio mundo. Contudo, logo as coisas ficam assustadoras e ela tem que usar toda a sua inteligência e esperteza para vencer um mal muito antigo que ameaçar destruir não só ela, como também, todos aqueles que ela ama.

Meu primeiro contato com Neil Gaiman foi aos meus dez anos de idade quando ‘Coraline’ foi lançado aqui no Brasil. Com a promessa de uma história de arrepiar, na época eu mal podia conter minha inquietação em desvendar os mistérios junto com aquela estranha garotinha. Como a criança que eu era, senti a mais profunda inquietação com o livro e quase não consegui dormir a noite de tanto medo que eu fiquei com o enredo construído por Gaiman. Não que na época eu soubesse de todas essas nomenclaturas utilizadas para se referir à estrutura de um livro, a única coisa que eu sabia era que eu estava completamente assustada!

Mas os anos se passaram e recentemente eu resolvi relê-lo. Na opinião do próprio Neil Gaiman eu poderia ter cometido um erro terrível ao fazer isso, já que segundo ele voltar a ler um livro é uma das coisas mais infelizes e absurdas que podemos fazer. Entretanto, para minha felicidade sua ‘profecia’ não se cumpriu e eu fui envolvida pela história do mesmo modo que há dez anos. Acredito que isso ocorreu porque eu encontrei todos os elementos que compõe uma boa história de terror mesmo este livro sendo infantil. Deste modo, ainda que eu não seja mais uma criança, consegui me encantar, me assustar e me envolver com a trama de uma maneira que infelizmente não acontece a todos que o leem e já tem certa idade.

Muito disso se deve a Coraline, ela é uma garotinha tão estranhamente encantadora, que é difícil não se apaixonar por ela e por sua personalidade tão aventureira. A maneira como ela é responsável e encara seus medos em prol de sua família e amigos, também é algo que eu gosto muito. Talvez tenha sido por esse carinho que eu passei a nutrir por ela que eu me incomodei com a negligência dos seus pais, de verdade, não consigo entender quando os pais não dão atenção aos seus filhos, mas isso é algo tão comum atualmente que fiquei feliz por a Coraline ter encontrado uma forma de enxergá-los além da própria falta que eles possuíam, quando ela se meteu em uma bela enrascada.

E por falar em encrenca, não posso deixar de mencionar o quão bem o Gaiman desenvolveu o mistério da história. Ele não só conseguiu me surpreender – mais uma vez – com a resolução do caso, como também, me encantar por sua maneira de não questionar a inteligência dos seus leitores fornecendo apenas poucas pistas da trama durante a história tornando o suspense ainda maior. Em minha opinião, é por essas e por outras que o Neil Gaiman se tornou mais que um autor extraordinário. Para mim, ele se tornou um dos meus autores do gênero fantasia favorito de todos os tempos, cujas histórias eu espero – sinceramente – que todos um dia possam ler.


– Você realmente não entende, não é? – disse. – Eu não quero tudo o que eu quiser. Ninguém quer. Não realmente. Que graça teria ter tudo o que se deseja? Em um piscar de olhos e sem o menor sentido. [...] Pág. 116

Playlist:


--- Isabelle Vitorino ---

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