Resenha Especial: A Bela e a Fera por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont

Em tempos de ansiedade para o lançamento da versão live-action de "A Bela e a Fera", me propus um desafio pessoal: ler tudo o que eu tivesse na estante sobre essa história. E olha, o resultado foi mais proveitoso do que eu esperava, por isso podem aguardar uma pequena maratona desse tema. Preparados? Vamos então conhecer a versão mais conhecida dessa fábula.


Título do Conto: A Bela e a Fera
Título do Livro: Contos de Fadas
Autor: Jeanne-Marie Leprince de Beaumont
Editora: Zahar
Páginas: 74 a 93 (452)
Ano: 2013
Onde comprar: AmazonSaraivaSubmarino
Branca de Neve, Cinderela, João e Maria, Rapunzel, O Gato de Botas, O Patinho Feio, Pele de Asno, A Pequena Sereia, O Pequeno Polegar. Essa bela edição comentada e ilustrada traz as mais famosas histórias infantis em suas versões originais, sem adaptações. São ao todo 26 contos de Grimm, Perrault e Andersen, entre outros, enriquecidos por centenas de notas que exploram suas origens históricas e complexidades culturais e psicológicas, além de uma apresentação, elaboradas por Maria Tatar, eminente autoridade no campo do folclore e da literatura infantil. O volume conta também com uma extraordinária coleção de cerca de 240 pinturas e desenhos, muitos deles raros, de ilustradores célebres como Arthur Rackham, Gustave Doré, George Gruikshank, Edward Burne-Jones, Edmund Dulac e Walter Crane. E traz ainda biografias de autores, compiladores e ilustradores, além de apêndices com diferentes versões de alguns contos.

Bela é a mais jovem de seis irmãos, vivendo com eles e seu amado pai em uma casa confortável, vê a sua vida mudar de maneira abrupta quando a sua família perde a riqueza que possuía e todos são forçados a ir morar no campo. Entretanto, o que para as suas irmãs era algo pavoroso, para ela era apenas um novo desafio a ser enfrentado. Conhecida por sua beleza e gentileza, toda a sociedade se compadeceu de sua sorte. Muitos foram os cavalheiros que pediram a sua mão mesmo ela sendo pobre, porém, com o desejo de permanecer ao lado de seu pai, ela recusou cada uma das ofertas.

Após mudarem-se para o campo, ela logo se adaptou a rotina de trabalho braçal e fazia o máximo para manter todos bem. O tempo foi passando e o destino da família parecia ter mudado outra vez, pois agora havia a possibilidade de seu pai recuperar parte de sua riqueza. Feliz por poder dar aos seus filhos aquilo que mais desejavam, ele pediu que fosse feita uma lista de tudo o que queriam, mas para a sua surpresa, a sua filha mais querida não quis nada.


Ansioso para agradá-la, ele a questiona e ela lhe responder que a única coisa que desejava era uma rosa. Partindo para a cidade em busca da salvação de sua família, o pai de Bela sofre uma profunda decepção ao não conseguir aquilo que tanto sonhava. Abalado pela tristeza, ele não se atenta ao caminho que deveria seguir e acaba se perdendo na volta para casa, sem saber o que fazer, adentra cada vez mais na floresta sombria. No entanto, o que poderia ser seu fim, acaba sendo sua salvação, pois é dentro do coração daquele lugar que ele encontra um castelo esplendoroso no qual podia se abrigar.

Em momento algum de sua estadia ele é pertubado - ainda que tivesse comido um farto jantar e se deitado em uma das confortáveis camas que havia por lá. Com uma energia renovada, decide procurar o caminho de volta para casa, porém, antes de partir comete um erro fatal: rouba uma rosa do jardim. Atacado por uma fera horrenda que o condena a perecer no castelo, ele só tem uma chance de voltar para casa e se despedir dos seus filhos. No entanto, ao retornar para o seu lar e relatar o ocorrido, a sua filha Bela não aceita o castigo cruel imposto ao seu pai e decide encontrar com a Fera em seu lugar. Temerosa com o seu futuro, ela adentra no castelo sem imaginar que uma incrível e mágica jornada estava prestes a começar.

Desde tempos imemorais o homem utilizou as fábulas para tratar de temas considerados importantes na sua época de uma forma mais acessível e porque não, encantadora. Na introdução do conto "A Bela e a Fera", a estudiosa Maria Tatar diz que essa história em especial foi escrita para ajudar as meninas a aceitarem de modo menos relutante o casamento com homens mais velhos - o que era algo que ocorria com frequência na época. Entretanto, não é apenas essa interpretação que podemos retirar desse conto. Apesar da simplicidade da história e do toque de magia presente nos acontecimentos, a situação peculiar da Fera e a personalidade poderosa de Bela sempre foram objeto de estudo e apreço.

Como leitora assídua, sempre pude ver referências dessa histórias em outras obras, também já pude ler algumas releituras que me fizeram amar ainda mais esse conto, tais como, "Beleza Perdida" e "A Fera" (já estou me programando para ler "Corte de Rosas e Espinhos"). E se vocês me perguntassem o porquê desse ser o meu conto de fadas favoritos, eu poderia começar a responder falando sobre o poder incrível do amor que permeia a vida desses personagens. Se dedicar e ser devota a alguém cuja aparência é aprazível não é um sacrifício, ainda mais se isso vier acompanhado de uma personalidade encantadora, mas quando o essencial é invisível aos olhos, poucos são os perspicazes a perceber o valor inerente a cada indivíduo. Observar Bela se encantando com quem a Fera era em seu mais íntimo ainda que o exterior dele fosse terrível, me faz pensar que muitas vezes o fator de julgamento humano principal é coordenado tão somente pelo aspecto fisico.

Não foram poucas as vezes em minha vida que vi de perto pessoas serem sentenciadas por sua aparência ainda que não tivessem tido a oportunidade de mostrarem quem verdadeiramente eram. Então sim, pode parecer piegas, mas essa capacidade de ver além tornou Bela a minha princesa favorita. Um ponto que me deixa pensativa, no entanto, é no que concerne ao seu pai. Se partimos da interpretação oferecida por Tatar, podemos entender que a sua permissão para Bela partir foi um incentivo para que ela encarasse os seus medos e vivesse uma vida longe de sua família. Porém, analisando as coisas de modo frio, considero ele um dos personagens mais egoístas da literatura. Como ver nele um coração bom e gentil, quando ele permite que a filha sofra uma punição em seu lugar? Sinceramente, eu não consigo e posso, inclusive, ver de onde vem os traços de egoísmo tão latentes nas personalidades das irmãs de Bela.

Sobre a Fera, me considero incapaz de falar sobre o quão intrigante considero a sua situação. É verdade que sabemos que uma fada o amaldiçoou, mas todo o cenário por trás disso fica no imaginário. Resta-nos imaginar hipóteses e consumir aquelas oferecidas pela indústria do entretenimento. Uma versão que eu gosto bastante é a do filme francês lançada em 2014, no roteiro, a Fera mata uma ninfa que era filha do deus da floresta e este, por sua vez, o sentencia a viver naquela forma inumana para pagar pelo que fez. Vivendo naquelas condições extremas, o personagem é impulsionado a rever seus valores e princípios de modo que se torna alguém diferente ainda que seu exterior permaneça imutável. Como alguém um tanto quanto idealista, amo esse conceito de mudança! Certamente viveriamos em um mundo muito melhor se ainda que permanecemos os mesmos por fora, o aprimoramento da nossa essência fosse constante.

Entretanto, é interessante saber que apesar dessa versão de Beaumont ser a mais conhecida, ela não é a única que se tem conhecimento. Ao que se sabe, a autora reescreveu um conto escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot e que apesar de não estar presente no livro "Contos de Fadas", pode ser encontrado no livro "A Bela e a Fera" também lançado pela editora Zahar. Além disso, estudos apontam que independente da versão que se leia, é certo que a origem dessa história está estritamente ligada a mitologia grega cujos personagens Eros e Psiquê, viveram uma situação similar a de a Bela e a Fera.

Como vocês podem perceber, detalhes e informações instigantes sobre este conto não faltam. E por mais que se escreva sobre o assunto, o tema não se esgota facilmente e pode assumir caminhos variados. Por isso se vocês ainda não tenham lido esta história, não demorem muito mais. Vale super a pena saber quais as origens, as influências e o contexto histórico que ditaram os contornos desse conto de fada que vem encantando leitores de todas as idades através do tempo.

[...] Podemos nos corrigir do orgulho, da cólera, da gula e da preguiça. Mas a conversão de um coração mau e invejoso é uma espécie de milagre. Pág. 93

--- Isabelle Vitorino ---

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