Resenha: A História Secreta por Donna Tartt

E a gente aqui achando que estudantes de Letras eram super pacíficos e tranquilos...

Título: A História Secreta
Autor (a): Donna Tartt
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1995
Páginas: 520
Onde comprar: Amazon | Submarino
Donna Tartt surpreende pelo talento com que combina a densidade psicológica e o vigor poético de um texto clássico com a trama complexa e o ritmo alucinado dos melhores romances policiais contemporâneos. Quem conta a história é Richard Papen, garotão da ensolarada Califórnia que consegue ser admitido na seleta Hampden, uma universidade em Vermont freqüentada pela elite norte-americana. Richard imagina ter atingido o Olimpo ao entrar para o círculo mais privilegiado daquela universidade. Cinco alunos, sofisticados e originais, selecionados por um mestre erudito e carismático, dedicam-se ao estudo da Grécia antiga. A eles junta-se o narrador, para participar da busca da verdade e da beleza, entre festas orgiásticas e finais de semana numa antiga casa de campo, regados a muito álcool e discussões filosóficas. A loucura desmedida certa vez termina numa orgia cujo ponto culminante é um ato de violência inominável e o suposto aparecimento do próprio Dioniso, numa de suas diversas manifestações.Quando descobre a terrível verdade, Richard envolve-se numa cadeia de segredos e cumplicidades, num encadeamento de medos e inseguranças que leva o grupo a cometer um ato ainda mais terrível. Melancólico e irônico, este é um romance feito de terror e prazer, remorso e decepção. Com ele, Donna Tartt revelou-se uma grande escritora já em seu livro de estréia. 

Esse é um daqueles livros que você morre de vontade de recomendar, mais que não sabe direito como instigar as pessoas a lê-lo, mas vou tentar.

Richard Papen é um jovem californiano nascido e criado em Plano, cidade que odeia amargamente. Após tentar a faculdade de medicina e falhar miseravelmente em sua escolha, somado a uma família totalmente disfuncional, nosso jovem protagonista resolve tentar ingressar em uma universidade elitista de Hampden, em Vermont, especializada em artes e humanidades, na tentativa de dar um rumo a sua vida. A escolha do curso, que é Letras, derivou do rapaz já ter feito anteriormente um curso de grego e ter gostado do que aprendeu.

Após quase um ano de cartas, esperas e ajudas de colegas, professores e dos poucos amigos, Richard finalmente abandona sua tão detestada cidade e família e adentra os portões da universidade. A priori, seu objetivo era simples: Formar em Literatura Inglesa e viver o mais longe possível dos pais. Ao chegar na faculdade, decide por pegar a matéria de grego, por já ter algum conhecimento da matéria, e é aí que vêm a notícia: A faculdade dispõe apenas de um professor que dá essa matéria, e ele é uma figura peculiar que escolhe seu grupinho de alunos. Grupinho esse de cinco alunos.

Ao conhecer o tal professor excêntrico, amirado como um deus por seus alunos, Richard é obviamente foi recusado. E, quando já estava aceitando que o professor de grego fez a Regina George com ele, eis que o rapaz se depara com os 5 alunos do mesmo.

Lindos, descolados e únicos, Francis Abernathy, Henry Winter, Edmund "Bunny" Corcoran e os gêmeos fraternos, Camilla e Charles Macaulay, o grupo seleto que parecia viver em seu próprio universo atemporal, faz Richard decidir de uma vez por todas: Ele precisava fazer parte daquele grupo.

Após muito tentar, Richard tem seu lugar ao sol e consegue ingressar nesse grupo, mas descobre que isso terá um preço. Ele terá que mudar sua formação para literatura clássica e todas as suas aulas terão que ser com aquele professor e com aquela turma.

Não, isso não era mais um curso. Isso se tornou uma seita.

Mas a maravilha da história não acaba por aí. pois o grande tema d'A História Secreta é um crime. Sim, no prólogo, nas primeiras linhas da história, sabemos que o grupo matou Bunny. Então seguremos a história do assassinato de trás pra frente, mostrando o que culminou esse grupo dionísico a cometer o crime e as consequências do mesmo.

Então, negue o quanto quiser, Shonda Rhimes¹, mas sabemos de onde veio a inspiração pra How To Get Away With Murder². (Mentira gente, nem sei se ela nega, tá?)

Falando um pouco da autora. Donna Tartt não demora pra lançar livros, ela capricha! Com apenas 3 livros publicados, um Pulitzer e uma legião de fãs apaixonados, a autora é bem discreta quanto a exposição. Sem nenhum tipo de rede social para publicação de seus trabalhos e com pouquíssimas entrevistas com o mesmo objetivo, a autora explica que precisa de um momento só dela para desenvolver seu trabalho. E podemos ver claramente isso.

Vamos discutir alguns pontos que acho bastante interessantes nesse livros.

A começar pelo narrador, nossa história é toda narrada em primeira pessoa, do ponto de vista do Richard, e a autora sabe explorar muito bem esse aspecto. O rapaz está longe de ser o narrador mais brilhante. Pra falar a verdade, muita coisa dita no livro pode ser aberta a interpretação se considerarmos que temos o ponto de vista de uma pessoa que "está no grupo, mas não faz parte do grupo". Richard ama e admira a todos os membros dos grupo com tal paixão avassaladora que acaba por nos omite muitas informações e só considera interessante nos mostrar em momentos-chave e isso, ao mesmo tempo que me fez perceber o que a autora está fazendo e querer aplaudí-la de pé, me dava ganas de enforcar aquele garoto! Ela sabe mesclar muito bem os momentos que devemos odiar, amar, ter pena e arrependimento de ter detestado determinado personagem. Tal maestria eu até o momento só tinha percebido com Gillian Flynn em "Garota Exemplar".

Donna Tartt também sabe montar personagens como ninguém. Ao invés de nos apresentar personagem X e gastar páginas discorrendo sobre suas características, a autora desmembra essas informações em ações e falas dos mesmos ao longo de todo o livro, para que nós, os leitores, montemos e tracemos o perfil de cada um dos membros desse grupo. Daí o brilhantismo em usar esse tipo de narrador passional e totalmente pessoal, que não segue uma linha temporal reta para narrar os acontecimentos. O Richard não precisa sentar e nos falar que ele e os pais não se dão bem, o leitor saca isso aos poucos e ao longo do livro. 

O livro também é carregado de referências literárias fantásticas, dos gregos, a Dostoiévski, a autora enriquece e dá mais verossimilhança aos estudantes de letras com elas. É interessante que isso também está refletido no grupo, que chega quase a ser um padrão dentro de um âmbito universitário. Temos o abastado, frio e distante, o que ostenta, mas não tem um tostão furado, o gay enrustido, a garota alegre que todos amam e mesmo o que finge ser rico.

Como cereja do bolo, Donna Tartt nos deleita com diversas análises ao ser humano. O livro é uma total e apaixonante declaração de amor à cultura grega, e chega a ser engraçado observar como no lado acadêmico temos essa contemplação as peculiaridades gregas, ao mesmo tempo em que na vida fora dos estudos a vulgaridade e cotidiano reinam na vida desequilibrada do protagonista.

A vlogueira Verônica Valadares mencionou em sua resenha que "A História Secreta" é uma releitura da peça grega "As Barcantes", considerada a maior tragédia já escrita. Nunca tive a oportunidade de ler tal obra, mas já tenho todo o interesse.

Peculiar. Incrível. Único. Tentador. A História Secreta é um prato cheio para aqueles que buscam um livro intrigante e que vai dividir sua mente e idéias.

"A morte é a Mãe da Beleza", Henry disse. "E o que é a beleza?" "Terror." "Muito bem" Julian disse "A beleza é raramente suave ou reconfortante. Pelo contrário. A verdadeira beleza sempre nos assusta"[...]"E, se a beleza é terror", Julian disse, "o que é o desejo, então? Pensamos ter muitos desejos, mas no fundo temos apenas um. Qual seria?" "Viver" disse Camilla. "Viver para sempre", Bunny falou, o queixo apoiado nas mãos. A chaleira apitou. - Pág 46
--- Marcel Elias ---

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