Resenha Especial: A Pequena Vendedora de Fósforos por Hans Christian Andersen

O Natal é uma das épocas mais mágicas e amadas por muitos. É aquela data em que cria-se uma euforia coletiva de bondade e alegria,onde a principal mensagem é sermos bons, gentis e caridosos com todos, sem esperar nada em retorno. Correto? Infelizmente, tal euforia é apenas uma máscara daquilo que a maioria de nós coloca em um curto período de tempo. Então, preparem-se para vir comigo desbravar mais um conto de chorar sangue do escritor infantil mais carrasco da humanidade.

AVISO: Essa história é um conto extremamente curto, então sinto que não poderei me delongar nela sem dar qualquer tipo de spoiler! Sendo assim, recomendo que, quem queira ler essa resenha, leia primeiramente o conto.


Título do Conto: A Pequena Vendedora de Fósforos
Título do Livro: Contos de Fadas
Autor: Hans Christian Andersen
Editora: Zahar
Páginas: 294 a 299 (452)
Ano: 2013
Onde comprar: Submarino
Branca de Neve, Cinderela, João e Maria, Rapunzel, O Gato de Botas, O Patinho Feio, Pele de Asno, A Pequena Sereia, O Pequeno Polegar. Essa bela edição comentada e ilustrada traz as mais famosas histórias infantis em suas versões originais, sem adaptações. São ao todo 26 contos de Grimm, Perrault e Andersen, entre outros, enriquecidos por centenas de notas que exploram suas origens históricas e complexidades culturais e psicológicas, além de uma apresentação, elaboradas por Maria Tatar, eminente autoridade no campo do folclore e da literatura infantil. O volume conta também com uma extraordinária coleção de cerca de 240 pinturas e desenhos, muitos deles raros, de ilustradores célebres como Arthur Rackham, Gustave Doré, George Gruikshank, Edward Burne-Jones, Edmund Dulac e Walter Crane. E traz ainda biografias de autores, compiladores e ilustradores, além de apêndices com diferentes versões de alguns contos.

Na noite da véspera do Ano-Novo, durante o rígido inverno europeu, uma pequena menina passa pelas ruas, descalça e sem nada que possa cobrir-lhe a cabeça, numa tentativa de vender suas caixinhas de fósforo. Tal tentativa mostra-se infrutífera, pois durante o dia não conseguiu vender sequer uma caixinha, ou mesmo arranjar uma moeda. Ela teme regressar para casa, pois seu pai lhe bateria por seu fracasso e, de acordo com o narrador, não teria tanta diferença de temperatura em casa ou nas ruas. Numa tentativa de abrigar-se, ela entra no espaço entre duas casas, enquanto observa as famílias e seus lares decorados ainda de Natal, crianças com seus presentes e mesas fartas para a ceia. A menina então resolve acender seus fósforos para tentar aquecer-se. Eis então que, magicamente, as pequenas luzes de esperança manifestam-se de forma única e extraordinária para a jovem.

Não vou tentar vender uma imagem de pessoa forte para vocês (até porque, quem acompanha minhas resenhas aqui no blog, sabe que não sou), eu tive que jogar uma água no rosto após reler esse conto para resenhar. A história é extremamente triste, beirando o trauma!

Hans Christian Andersen é bem conhecido entre aqueles que apreciam contos de fada, como o autor carrasco. Vocês puderam ter uma prova disso com a resenha d’A Pequena Sereia. Nesse conto, Andersen usa de uma data geralmente festiva, onde os sentimentos de bondade afloram até mesmo nos corações mais duros e gelados (Abraços, Scrooge), para fazer uma crítica social.

Mas Marcel, o conto mal tem três folhas! Onde você está vendo crítica social ali?

Vamos lá, caros amigos: Uma pobre moça, que, em poucas linhas do texto, pudemos notar que tem uma família disfuncional e que tenta a todo custo ganhar míseras moedas para sobreviver vendendo um item extremamente banal e acaba por ser vítima de sua situação... É tão raro assim encontrarmos alguém nessa situação, mesmo em nosso país?

Ao ler esse conto, após a dor emocional gigante que ele me traz, a primeira coisa a me atingir é uma sensação de vergonha. Quantas “Pequenas Vendedoras de Fósforos” já não encontrei em minha vida e acabei por ignorar, considerando-as como parte da paisagem? Imagino esse ter sido o objetivo do autor com o texto. A crítica se encontra em nós, que nos tornamos tão “virtuosos” durante a eufórica onda natalina, tão bem disseminada por Charles Dickens, mas que na verdade tanta generosidade encontra-se muito mais vinculada a sentimentos egoístas que a uma genuína bondade.

Fora essa crítica, Andersen nos mostra que ainda podemos considerar a história um conto de fadas quando vemos o fantástico acontecer. A ideia da transformação das pequenas chamas, que meche com os diversos sentidos da menina, gera uma dúvida em nossas mentes se aquilo de fato está acontecendo ou se não passa de um devaneio de alguém que teve tão poucas alegrias na vida. Ele nos mostra que a imaginação pode sim ser uma poderosa arma contra as mazelas da vida, por mais duras e irreversíveis que possam ser.

Com um final de partir o coração, ao mesmo tempo em que a menina finalmente encontra seu alívio, esse conto mexe com nossos sentidos. Com sua escrita incrível é possível sentirmos frio com a garota, ou mesmo ter as mesmas sensações que ela, ao riscar aqueles fósforos.

Nossa, Marcel! Que mensagem mais triste! É Natal!

Meu objetivo, ao resenhar esse pequeno conto, não é estragar as comemorações de ninguém. É claro que não temos como socorrer a todos que estão ao nosso redor. Mas fica aqui meu apelo: Não se deixe levar por uma onda de alegria. Que você, que está lendo essas poucas palavras, possa manter essa aura da generosidade e bondade não durante um mês, mas durante toda a vida. E que sempre que você puder, estenda a sua mão para aquela pequena jovem entra casas, que luta com todas as forças por algo que é um direito de todos: viver.

Por isso, desejo a todos um Feliz Natal, e que possamos ser gratos pelos pequenos milagres que temos em nossas vidas.

Ninguém podia imaginar que coisas lindas ela vira e em que glória partira com sua velha avó para a felicidade do ano-novo. - Pág. 299

Playlist:

Claude Debussy - Clair De Lune  

--- Marcel Elias ---

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